quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Covinhas

Vem mansa a hora da brisa,

distendendo o sopro no alisamento do rosto.
O sorriso adivinha-se nas covinhas,
relicário de todos os mistérios do ser.
Só ela tem a chave mas são os outros
que se tentam no desvendar dos enigmas.
E ela deixa, de vez em quando,
uma pétala para chegar ao jardim.
Ou uma mãozinha curiosa
a bordejar as côncovas linhas.
Adejantes com este namoro,
abrem-se e fecham-se,
aparelhando-se com o olhar de espantos.
E, de repente, já não há rosto,
nem covinhas, nem linhas.
Apenas um girassol a abrir-se, a tomar todo o jardim.
Onde as vontades são momentos de verdade.

Odete Costa Ferreira, 23-08-17
Foto: Odete Costa Ferreira

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Tempo que fica



Passeio os dias pela macieza do afeto,
num apetite voraz de sabor
a tempo que fica.
Como comensal na mesa de iguarias irrepetíveis.
Humanos risos, humanas mãos
que se tocam no burburinho dos talheres.
Que conversam. Entre-os-dentes.
Demorando-se na boca, na degustação das palavras.
Estaladiças, fogosas, vermelhas de paixão.
Num desnudamento vestido de cores.
De frutos. De mim. E de céu.
Que se compraz no desenho de olhos
em dedos ávidos de fugas.
Para dentro das raízes que somos.
Que se veem. Nas têmporas já maduras.
E nas histórias cheias de enredos.

(Odete Costa Ferreira) - 24-08-17
Obra de Josefa de Óbidos
(Passarei a incluir o apelido Costa nas minhas publicações)

sábado, 19 de agosto de 2017

Tontices e lamechices

Se custou? Em absoluto! Sinto-me como peixe na água, ou melhor, como aquariana num aquário ilimitado de água e tempo! A cadência da contagem mental, medindo a distância, manteve-se ágil. As bordas esbranquiçadas ainda marcam os limites conforme a maré; as ondas permanecem leves como os espíritos que as seguem. O corpo… O corpo é ainda de água a escorrer a malícia do sal benfazejo…
Toquei uma das rochas e o contentamento rebentou, incontrolado, iluminando o rosto e ostentando, sem pudor, as marcas da idade. Durante anos, o conjunto de rochas desiguais, delimitando a praia, foi uma espécie de meta, a marca da superação da caminhada praia afora. Daí que, o gesto simbólico do toque, soubesse ao rebuçado que ainda me é permitido saborear. E, por largos momentos, a sensação de festa não teve idade, apenas um experimento emotivo, o único que sustém o tempo e mantém as asas de anjo…
E todos os pensamentos se assemelhavam, se repetiam, teimando em reproduzir as memórias de verões (sobretudo pela Figueirinha, Portinho da Arrábida e Tróia) com o rebento a apalpar a areia, a chapinhar, a desafiar o mundo azul. Curiosamente, este ano, o olhar só ia na direção da cumplicidade entre avós e netos. E os ouvidos engatilhavam diálogos a partir da doçura das palavras, intensificada pelas bolas de berlim, que os netos e as netas mais crescidos aceitavam prontamente. Ora, férias são férias.  E não se deve recusar ofertas duplamente saborosas dos avós!
Tontices e lamechices… E é tanto!

Odete Ferreira, 18 de julho de 2017
Fotos de Odete Ferreira

Um apontamento sobre o regresso à praia de Monte Gordo, após alguns anos de ausência.


Onde me atrevo a nadar sem receio…


O hábito de deixar chapéus de sol, cadeiras e toalhas na praia, à hora de almoço, mantém-se.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Como Fénix

Obra de Tomasz Alen Kopera

Sossego-me de vida em gesto lento,
apascentando colos de verde alimento.
Há corpos cansados em varandas de espera,
tardinhas secas, dessecadas, moribundas,
Já nada resta do que foi uma praça.

Despega-se a saudade do seu sentido.
É ao vazio que se cantam loas
de silêncio, de olhar mudo, de boca caída,
na apatia de escombros adormecidos.

Pelas ruas que já foram,
Cuido das flores azuis, sobreviventes,
testemunhas de sonhos recentes
e da crença na inalterabilidade dos elementos.

São ares a quebrar vidros,
instantes de roncos intestinos,
ira de deuses proscritos
da perfeita ideia legada.
Falha nossa. Pela boca morrem os atos.

Talvez sejam avisos, mensagens cifradas
no livro da Terra inscritas,
mas ao senso do Homem cerradas.
Que não se perturbem os silêncios emprestados.
São eles que nos permitem o caminho.

OF (Odete Ferreira) – 31-08-16

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Eflúvios


 Arte de Anastasia Vostrezova

Na plasticidade dos dias lentos,
exalta-me o viço da cor,
colírio de rosas brancas,
olhar líquido, abraço sedutor.

Que não fiquem secretos os pergaminhos,
testemunhos de humanos amores.
Dos primórdios chega-nos o rufo dos tambores,
soltando o ritmo, chamando a dança…
Vem de longe, a chama do abraço.

Na plasticidade dos dias escorreitos,
fervem-me líricos espasmos,
eflúvios de palavras fogosas
pluviosidade fora de tempo…
Quando em ti me cerras o peito.

OF (Odete Ferreira) - 24-05-17 

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Sã idade. Ou sanidade

Foto, Odete Ferreira
É sempre um sentimento de plenitude, quando aqui me sento; o rio pausado no descanso das margens largas, abertas ao acolhimento gracioso; a esplanada despretensiosa e despreconceituosa, cenário perfeito para qualquer enredo e personagem; o som alternativo, emergente de emoções que só este adentramento permite; a postura sorridente que capto e captura as palavras, libertando-as para, de imediato, as aprisionar no escrito, testemunha de uma possível definição de felicidade…
E todas as inquietações capitulam.
E todos os sorrisos são risos loucos.
E todos os rostos amados se endeusam.
E todas as almas que não retive em momentos como este, são o quase, o senão para a assunção da felicidade em estado sólido.
E humidifica-me o seu estado líquido, barrento, como tempestade castigadora.
Mesmo nestes momentos. De poesia. Imperfeita, em todo o caso…
(25-06-17)
Obra, Pawel Kuczynski

… e para os casos em que todas as vozes castradas de uma réstia de bom senso se atropelam nas tragicomédias destes tempos. Definitivamente, o acessório saltou para a ribalta. Porque os olhos (e os ouvidos) se tornam, cada vez mais, fúteis. E, assim sendo, o essencial é domínio dos raros. Que serão os novos loucos a precisar de instituir uma outra sanidade…
Odete Ferreira
(30-06-17) 

*as datas são relevantes no escrito