quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Gente de largo chão

Obra de Paula Rego

Cala-se a voz, emudece um povo,
chora a terra, enluta-se um país,
nódoas de dor, olhos de gato judiado,
teias de sublevação a nascer
quando das escuras es-quinas
espreitam tochas a refulgir o brio perdido.

Silenciosas noites, fervilhantes poemas,
metáforas encapuçadas, hipocrisias descaradas,
bailados de cadeiras, tiranias apalavradas,
quando pela palavra se amordaça a língua.

Afoitam-se os passos nos paços dos abutres
esperando a madrugada redentora.

Há um cravo vermelho na seiva primeira,
cravado na espinha dorsal da Lusitânia,
no jardim de pinhais e cânticos de vontade
donde os rijos mastros saíram para navegar.

De vez em quando amoucha-se o cravo vermelho
e o sangue que o alimenta esvai-se de vergonha.
De novo, tremem os passos nos paços dos abutres,
chamando a madrugada redentora.

A liberdade medra em terra de pão,
a independência é gente de largo chão.

OF –01-12-16

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Passagem

Obra de Brooke Shaden

“Todo o mundo é composto de mudança” – verso locomotiva de Luís Vaz de Camões, verdade incontestável, asserção sem tempo e idade, porventura a génese e marca do conceito mundo. Hoje, acrescenta-se ao discurso o adjetivo vertiginoso sempre que a mudança escapa a qualquer tipo de previsão, como se os fenómenos tivessem ADN próprio e a mão humana estivesse já condenada à morte em vida.
Um dado novo, assustador, visto vivermos a perenidade e não a caducidade.Se é certo que, ao longo do ciclo de vida humana, o instinto de passagem nos leve a preparar algumas perdas, comandando os nossos atos de esvaziamento para dar lugar a outros enchimentos, fazêmo-lo como herança do(s) lugar(es) onde estivemos.
Ontem, foi mais um dia de passagem de testemunho, rasgando registos de tanta vida profissional, de tantos lugares e de tantos rostos. São atos corajosos, altruístas. Conservar estes registos não passaria de mero egoísmo, quiçá algum narcisismo. Tão belo, tão criativo, tão avançado para o tempo… Que orgulho na repescagem de partilhas, de deslumbramentos mútuos! A par, ocorria-me, sobretudo se hesitante: tudo o que fiz foi uma espécie de doação de órgãos que se foram regenerando até ao momento em que os rostos da ensinança deles precisaram. Vivo neles, não nos registos. Elegi-os fiéis depositários, por isso nem sequer foi doloroso. Os rostos, impressos em folha A4, conservei-os. Ainda me é importante ligá-los ao nome. São identidades da minha identidade. São jovens, homens ou mulheres, que eu saiba, praticantes de boa vontade, dotados de espírito crítico.
Mesmo que muitos não se dirijam às urnas de voto para exprimir a sua vontade, sei que, na sua vida, só cabem as mudanças que dignificam as pessoas. E sei que, muitos, mas muitos, não caem facilmente na cantiga do bandido. É nesta crença que tenho um dos meus sentidos de vida.

Agora, por ali estão, devidamente empilhados, os dossiês, nus de registos. Rasgos de luz. Ressurreição. Depois da passagem…

Odete Ferreira em 10-11-16 

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

sábado, 29 de outubro de 2016

Sangramento(s)

A morada

Ainda com a indolência própria dos gestos preguiçosos de noites repousantes, abri as janelas que dão para a parte do jardim mais arborizada. Um pouco antes, no escasso tempo que os passos percorreram entre a copa e a cozinha, chegara-me, nítido, o chilreio da passarada. Estava habituada a ouvi-lo, mas não desta forma. Entre a curiosidade, a surpresa e a inquietude, saindo para o exterior, desafiando a frescura da manhã enevoada, quedei-me, atónita, confesso, na contemplação daquele quadro inusitado e inquietante. Os pássaros voavam de um lado para o outro num alvoroço confrangedor. Compreendi os sinais como se fora um deles.
Sem aviso prévio, haviam sido despejados da sua morada. E exprimiam a sua dor. Numa revolta que não poderia reverter, nem tampouco amaciar. Eu tivera tempo para me preparar para a mudança. A razão tivera tempo de preparar a emoção da perda. Irreversível. Imperativa há muito, mas que fora adiando. Afinal não havia sido responsável pela plantação de árvores de grande porte no jardim. Confiei no saber fazer de jardineiros. Agora, avisada pelos tempos de constantes enganos, já me precavo e negoceio as regras para o meu território.


Passou-se no meu quintal, hoje. Quantos quintais do meu país a sofrerem a desfaçatez da incompetência e da negligência! Quantos quintais a precisarem de um planeamento holístico! Urgente evitar dores. Todos somos Terra! Felizmente, há outras moradas por ali. E este pensamento aliviou-me, tal como a notícia que ouvi, quase em simultâneo ao narrado, de medidas que vão ser adotadas, preventivas da calamidade dos fogos. Coincidência? Não. Apenas necessidades e urgências. Apenas os gritos da Terra a imporem-se, antes que, como escrevi no poema Ardem-me os olhos :
Será a mãe nossa que pedirá algozes,
antes que todos os filhos nasçam estropiados. 

Odete Ferreira - 27-10-16

Adenda em 28-10:
Hoje, apressei-me a abrir as janelas. O chilreio da passarada havia retomado a sua cadência normal e o voo era apenas voo. Como bons vizinhos, as moradas desocupadas acolheram novos inquilinos. Senti-me mais leve. 

Fotos: Odete Ferreira

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Desceu-te a noite

Obra de Edward Hopper

Desceu-te a noite. Mas era tão clara
a hora marcada nas tuas primaveras.
Tremor a travar teus ruidosos passos,
os francos sorrisos. Até a pressa
da raiva, no momento.

Assaltou-te a mudez. Tu que eras
a loquacidade de todos os espaços
e a promessa das vozes perdidas
nos becos. Escuros. Mas onde
deixavas archotes vivos.

Cobriu-te a dor. Ferida exposta
a tantos rostos desconhecidos,
mas iguais na nudez do corpo,
nas marcas disfarçadas pelos cuidadores
da dignidade arrancada – quando? –
na emboscada da vida.

Pesou-te a derrota.
Capitulou o orgulho de seres.
Visionaste o fim do império construído.
O vale, onde as lágrimas eram criação,
secou-te o húmus e perdeste a fé
na eternidade dos montes. Teus!

Visitou-te o rio. Dele bebeste
a força de todas as nascentes
e as palavras que o homem inventou
para se ancorar.
E nele lavaste a roupa ensanguentada.
Vestida de branco e olhar de lua,
estendeste o braço. Pacientemente.
Naquela sala, iniciaste a luta. A tua!

OF (Odete Ferreira) – 19-10-16

quarta-feira, 12 de outubro de 2016