sábado, 1 de outubro de 2016

Nunca saberei dizer-te adeus

 Obra de Lauri Blank

Nunca soube dizer-te adeus.
A magnitude da tua luz
ofusca o meu próprio brilho
e só em recantos escuros
surjo vestida de branco
e pele curtida pelo teu tempo.

Há um durante que esbofeteia
a inércia acumulada pela tua ausência.
Toco as marcas da tua presença
como languidez de noites possessas,
como dança em ondas espreguiçadeiras,
areal de branda ondulação,
sussurros inconfidentes,
enquanto
me tomo de água, ar e vento,
esvoaçando
entre tules azuis
e o azul do teu olhar
límpido
apenas turvado pelas miragens
onde me afundo.

Guiam-me as velas de cheiros
e a música intimista
que vagueia pelo sentido de mim.

Nunca saberei dizer-te adeus.
Enquanto for, ser-te-ei fiel.
De uma fidelidade entalada no berço do sono,
entre estações
que se revesam numa espera serena.
E brindo, despedindo-me.
E brindo, vestindo-me de outras cores.

OF (Odete Ferreira) – 21-09-16

Não costumo pedir nada mas, desta vez, atrevo-me: quem passar por esta partilha e não tenha estado nesta http://portate-mal.blogspot.pt/2016/09/visitacao.html
gostava muito que  não a ignorassem. Obrigada.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Se nevoeiro fosse


 Obra de Enrique Monraz

Se de nevoeiro se tratasse,
bastava esperar que o tempo aclarasse…

… mas…

É névoa permanente a mágoa consistente,
lodosa água a turvar a nascente
da limpidez da imaculada morada.

A alma, lugar de todas as imanências,
se maculada, faz pousio na secura do vazio
e os gestos vestem a nudez do desapego.

Não há rio, corrente, sequer fio de prata
que lave a neblina de turvado olhar,
perdido em terras de ninguém…

… Tampouco…

O sol nascente para lá do horizonte,
a lua em quarto crescente prometida
branqueiam o enevoado espaço de dentro.

Se apenas dos dias o nevoeiro fizesse parte,
eram as noites que faziam os (nossos) dias.

OF – 14-09-16

Não costumo pedir nada mas, desta vez, atrevo-me: quem passar por esta partilha e não tenha estado na anterior, gostava muito que  não a ignorassem. Obrigada.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Visitação

Acontece ter-te
antes do teu grito terreno
pelo amor que me é íntimo
num ventre onde fecundo é o sentimento.

E verte-se uma ternura macia
a lavar a pureza que me renova.
São breves os instantes da aparição,
como reflexo fugidio em águas turvas de um rio.

E o todo é imenso,
ainda que as formas sejam difusas.
E como te sinto e te amo
na linguagem terna dos movimentos;
dança improvisada de gestos
que retenho na distração do sonho.

Ausentes eram as cores dos lugares,
apenas de azul era o espaço.
Uma estrela, a tua existência
que guiava e preenchia
o ninho do meu abraço.
Que em mim se quedou,
não fosse espantar o sono dos puros.

Componho estes versos imprecisos
antes que a memória se cale
na espera do teu grito terreno:
vIVO, pulsante, como luz
de solstício de inverno.


OF (Odete Ferreira) – 16-08-16 

Rui Simão (filho) e Patrícia
Foto de Rui Simão
(Nesta postagem tentarei responder aos comentários)

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Ardem-me os olhos

Foto retirada do google

Ardem-me os olhos,
na pira demoníaca crepitam,
corvos putrefactos crocitam
as dores da terra ardida.
Línguas de fogo engolem
feridas em carne viva.
Sacrifício de cordeiros mansos,
imolação terrorista…

Negra, tão negra, esta crueza enegrecida!

Por muito tempo inertes ficarão os braços
e os passos não farão caminho.
Os verdes, ao Homem, serão escassos.
Estranho, como o vil, em ti, alimenta seu ninho.

Por muito tempo se exaltarão as vozes
e os poderes, raivosos, deverão ser açaimados.
Será a mãe nossa que pedirá algozes,
antes que todos os filhos nasçam estropiados. 

OF (Odete Ferreira) – 12-08-16 

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Momentos improváveis


- Sabes quanto custam as carteiras desta marca?*
- Eu não, eu nem conheço o c…… da marca!
- ???
- Não, eu quando vou às compras, vou direta às lojas x e y. Custam-me pouco a ganhar 50 euros, quanto mais andar a saber de marcas! Olha, a minha mochilinha custou 5 euros!
(…)
Gosto destes momentos improváveis: sentada numa esplanada à cata de conversas banais, mas que são o quotidiano de gente tão comum quanto eu, nas quais o palavrão adquire estatuto de português vernáculo. E, acreditem, este excerto da conversa, foi uma leve amostra!
Entretanto, chegam à mesa as francesinhas pedidas; os meus vizinhos deste espaço social, dois jovens casais e uma linda menina aparentando 2 aninhos, atacaram-nas com visível saudade do seu sabor ou do sabor deste descontraído convívio. Saudades lusas, certamente! É que, de vez em quando, soltavam-se algumas palavras do país vizinho…
*Contextualizando: nas festas da cidade, verifiquei que se vendiam bem as carteiras de “marca” e, tal como uma das jovens, confesso que também não conheço a maior parte delas. Mas, em abono da verdade, o gato passava bem pela lebre! Pelo menos a olho nu!

Odete Ferreira - 14-08-16 
(O breve relato não tem outra intenção que não o registo de momentos que me deliciam; por isso privilegio, no verão, a ida a uma esplanada "comum" para tomar o meu café de final da manhã; de vez em quando, apanho conversas para todos os gostos. Esta foi bem apimentada!)

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Pequenez da palavra

 Obra de Christian Schloe

Equaciono, frequentemente, a capacidade de transmitir sentimentos pelo signo linguístico. E discorro. O verbo sentir exige, pela sua natureza, algo que o complemente visando que o outro apreenda a mensagem. Portanto, ainda que se entenda a definição aposta no dicionário, os sentimentos são pertença da alma poética. Logo, com toda a propriedade, pode afirmar-se: há sempre um poeta em cada um de nós. E quem duvidar é porque a esse ser humano lhe falta agudeza de espírito.
Quando, em qualquer circunstância da minha vida, sobretudo na condição de professora, tentava que os meus aprendentes percebessem o alcance da afirmação, notava-lhes uma surpresa que os emudecia. Ficavam a matutar, a medir o pulso do seu próprio entendimento. Sem dar muita margem à reação, prosseguia nas minhas elucubrações. Escrever vem depois e a idade com que se começa a exteriorizar, usando o signo linguístico, não é relevante. Importante é viver em poesia. E todos podemos ser mágicos. E todos podemos viver a magia dos contos de fada…
Tanto arrazoado quando, afinal, talvez queira apenas convencer-me que, é possível definir sentimentos. Para nós, para o nosso dicionário interior, onde o sentir é um todo indivisível, apenas fatiado para matar a fome dos afetos…
É nesta linha que situo a paz que me atravessa por inteiro. E, só assim, tem sentido

que desejemos ao outro, antes de tudo o mais, PAZ…

Odete Ferreira – 08-05-16 

Pequenez da Palavra II

E esta paz pode exponenciar-se. Até que os sentimentos se fundam sem causa nem efeito. Em pó de arroz para salientar as maçãs do rosto. Em água de cheiro para aspergir o colo cansado. Em sorrisos de alma apenas visíveis no brilho do olhar. No riso cristalino do filho a situá-lo menino. Nas sementes que hão de germinar e rejuvenescer o tempo, saudando-o a cada solstício com rituais de batismo…
Por isso:
Há um sentir maior que o verso,
maior que as horas do tempo,
maior que as turbulências do momento,
um tempo vivente no vento que me chega disperso.

Iço as velas; não importa o rumo, apenas navegar à vista…

Odete Ferreira, 31-07-16