terça-feira, 25 de abril de 2017

Onde estavas no 25 de abril? (Final)


O 1.º de maio de 1974 foi algo que nunca se apagará. Manifestações espontâneas. Mulheres de olhos brilhantes, como se de uma emancipação coletiva se tratasse.  Jovens irmanados num sentir e num vestir muito idêntico. A minissaia, as golas, as calças à boca de sino, são adereços exteriores que, além de marcarem uma época,  conferiam  condição identitária às massas. Os comícios, as sessões de esclarecimento, ingressar em partidos como o MRPP, a LUAR e outros foi um patamar obrigatório para uma juventude que vivia a utopia, que renascia, sentindo que havia uma missão a cumprir. Ler Mao Tsé Tung e afins em pleno café… Roubar, literalmente, maquinetas policopiadoras para os panfletos de propaganda e educação dos trabalhadores. Assaltar sedes, assistir à radicalização do discurso, ver o meu irmão ainda ser levado pela polícia e assistir ao amontoado de gente junto do Tribunal pedindo a libertação dos jovens… Um pouco de tudo isto vivi e de forma ativa. Armas nunca escondi em casa mas propaganda, sim. No meio da liberdade conquistada, a clandestinidade de ações como esta e outras, fizeram-nos mulheres e homens de fortes convicções. Os próprios conteúdos universitários passavam pelo contacto com autores até aí circunscritos a uma minoria. Lembro-me de ler Althusser, na Faculdade de Letras de Lisboa, onde fiz algumas cadeiras de 1.º ano (e como tenho gratíssimas memórias desse tempo!). Até o namoro era revolucionário, pois, frequentemente, eram as cumplicidades nas ideias e ações que nos uniam. “Vemos, ouvimos e lemos” e eu acrescento, vivi intensamente um período que marcou indelevelmente a matriz do meu ser, do meu estar e, sobretudo, do meu pensar e agir. Nunca mais fui a mesma. Da luta mental passei a uma luta ativa. Fazendo, crescendo, cimentando, convencendo. Os Direitos do Homem ganharam aquele sentido já delineado na Revolução Francesa. E é ainda por eles que continuo a ser uma fiel filha do 25 de abril de 1974…

Odete Ferreira
Termina, nesta partilha, a divulgação do testemunho, publicado na Coletânea "25-04-1974", iniciado no dia 23 de abril.
Muito grata a todos os que o viveram comigo, estando presentes nas partilhas. 

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Onde estavas no 25 de abril? (3)

Na disciplina de história (uma das minhas preferidas) a quantas revoluções assisti pelas vozes de contadores de histórias, as minhas encantadoras professoras da disciplina! Ainda hoje me lembro da professora Cândida dizendo “Então o fulaninho…”. Eram histórias dentro da história. Uma delícia, esses relatos! Às batalhas, às guerras, às revoluções dava-lhes um condimento mágico, apesar da moldura de horrores que as precedia e se lhes seguia. Era passado, agora era presente. E havia uma revolução, caramba e eu iria assistir! No fundo, sentia um formigueiro de emoções…
Cada uma de nós lá ia conjecturando umas coisas mas nada de substancial que me marcasse a memória. Lembro-me de proferir um desabafo “Só não quero que haja fome”. Percebo bem esta verbalização. À época  a toda a conturbação social de que tivera conhecimento em contexto educativo, estava associada a fome (então a célebre frase de Maria Antonieta sobre a fome do povo “Qu´ils mangent de la brioche” era bem a súmula da repulsa que agitava já o meu ainda imberbe sentido de preocupação pelo outro, pelos sem voz, pelo desfavorecido da sorte..). Era também o que mais me marcava nos relatos dos avós: a racionalização, as senhas, as filas. E a literatura  do período realista estava bem presente. Consequentemente, todo este imaginário me levava a recear tal efeito.
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Preenchida a manhã nesta deambulação pela rua principal, o resto do dia passei-o por casa, seguindo avidamente as notícias que iam passando na rádio e acompanhando as imagens numa TV ainda a preto e branco. Fui montando o puzzle e, à medida que as peças se encaixavam, dava-me conta do enorme feito do momento verdadeiramente histórico que estava a viver. E, cá dentro, sentia um enamoramento irracional, uma paixão avassaladora por aquelas pessoas, aqueles lugares, aquela gente anónima que sorria ao mundo com pueril inocência. Tento que a minha memória de então não se deixe invadir pelo conhecimento atualizado dos documentários, relatos e séries a que assistimos de vez em quando, sobretudo sempre que se aproxima mais um aniversário da revolução. E ainda bem. Quem não viveu os acontecimentos, tem de perceber a grandeza levada a cabo por um punhado de gente que nos devolveu o principal legado incontornável: a liberdade! Para mim, o direito primordial da condição humana. Assim, foco-me na magia das imagens: um mar de gente anónima, o dito povo, nas ruas, audaciosamente proferindo a plenos pulmões as palavras “de ordem”, como passaram a ser designadas, como que libertando todos os gritos silenciados por anos de obscurantismo; os jovens empoleirados nas árvores, assistindo de camarote aos acontecimentos da rua do Carmo. Os cravos que adquiriram um estatuto maior ao serem símbolo de uma revolução sem armas. E era no meu Portugal, de uma pequenez geográfica, que se projetava ao mundo como referência… Percorre-me um arrepio emotivo, evocando estes momentos. Afinal havia heróis de carne e osso. Não os podia tocar, mas via-os e ouvia-os. Fazia parte do filme, não era apenas um elemento decorativo num cenário imaginário. Este era um cenário real, onde todos se sentiam atores principais. Com uma velocidade estonteante e uma avidez contagiante, também na minha cidade (então vila) se viveu intensamente o 25 de abril. Fui sabendo que, afinal, havia muita gente contra o regime; fui sabendo quem tinha sido molestado pela PIDE; fui sabendo de reuniões secretas; fui sabendo de tanta coisa. E aí, sim, o orgulho personificou-se. A minha terra, situada num Trás-os Montes, esquecido, tinha homens e mulheres pensantes. O avô Mário ainda chegou a ser interpelado pela polícia. Falava alto e de boca cheia. Estava catalogado, assim como tantos outros que sofriam na pele a dureza da terra e o silêncio dos inocentes.

Odete Ferreira (testemunho iniciado no dia 23)

Onde estavas no 25 de abril? (2)

E nesse estado, misto de puerilidade, ingenuidade e curiosidade pelo que me era interdito saber, assim me encontrava na época do golpe de estado. Por vezes uma colega minha – penso que um pouco mais velha e filha do gerente de um banco, pessoa naturalmente mais conhecedora da situação política portuguesa – atrevia-se a tentar uma conversa com o padre de Religião e Moral. Ainda hoje penso por que razão seria nestas aulas. Mas tinha a ver com o que, certamente, em sua casa se conversava, trazendo já, coladas na sua maturidade, algumas pedras no sapato anti-clericais.

A verdade é que as minhas orelhas se arrebitavam percebendo, nas entrelinhas, que ela queria saber até que ponto o padre de então seria detentor de ações ou movimentos que começavam a ser sibilados. Bastava-me ouvir segmentos lexicais como “movimento estudantil” ou a alusão a Coimbra para perceber que havia algo que mexia. Tudo parecia tão longínquo! A geografia e os lugares do conhecimento! Coimbra que conhecia pelo fado. O meu fado e o de tanta gente era claramente o da amputação mental: ignorância, desterro, escravidão na mera passagem de dias dedicados a  tarefas prosaicas. O sonho, a fantasia não passava por este país; assim só tinha como referência os lugares que me visitavam nos livros que devorava. Contudo, nem o perspicaz Sr. Lemos me podia valer. Nunca encontrei nas prateleiras da Biblioteca Calouste Gulbenkian livros políticos (ou não soube procurar) . E eu que sempre tinha uma relação de atração fatal pelo desafio, não escolhera ter aquela disciplina de Organização Política, trocara-a por outra língua estrangeira (apanhara uma reforma que permitia escolher disciplinas, havendo apenas duas ou três obrigatórias, conforme a área escolhida); razão: havia sempre boas notas, logo não valia a pena ter uma disciplina tão fácil – deduzia eu. Estudar alemão, isso sim, é que era um desafio (além de latim e inglês).
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Regresso ao tal dia banal… Cheguei ao então liceu nacional num dia insuspeito. Parece que ainda não havia tocado para a entrada ou então já teria tocado mas ninguém se dirigia para o edifício principal ou para os pavilhões pré-fabricados. “Hoje não há aulas”, alguém anunciou, talvez o diretor do liceu da altura. A surpresa foi dando lugar a alguma apreensão. Era inédito! Contudo, quase de imediato, fomos sabendo a razão: tinha havido uma revolução em Lisboa mas os contornos da dita permaneciam desconhecidos. A “revolução” não era uma varinha de condão para repor a falta de instrumentos básicos de que o sistema nos amputara. Assim, entre a já referida apreensão e o contentamento por termos um dia inteiro de “feriados”, o nosso grupinho desceu vagarosamente a ladeira de acesso ao liceu, vindo passear-se pelo único espaço que percorríamos para cá e para lá, inúmeras vezes, na estreiteza da distância – a rua principal – tal como o eram as nossas mentes em relação à política. 

Odete Ferreira (testemunho iniciado no dia 23)

domingo, 23 de abril de 2017

Onde estavas no 25 de abril? (1)




Foto retirada do google. Mirandela (muito) antiga

Um dia banal. Como quase todos os que decorrem na placidez de uma vila amorfa visível nos raros transeuntes que caminham no vagar do piso esperando a reparação de buracos onde, à falta de espelhos, miramos com pudor a imagem refletida. Era um exercício quase automático; a cabeça pendia tendencialmente para o chão, como se uma burka invisível nos fosse vestida pelos olhares atrevidotes do sexo oposto. Ou talvez, sem o saber, esse abaixamento fosse a postura normal nas gentes anónimas, subservientes pelo espaço onde apenas alguns teriam direito a caminhar na sua altivez endinheirada.
Confesso que não sei. Deduzo à luz do conhecimento adquirido, na análise de um caminho que fui palmilhando e na reflexão atitudinal do meu ser atual.
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Prontidão de gestos no levantar da cama, pressa no esvaziamento da caneca de café – já detestava leite – e no fugaz sabor do pão barrado a margarina ou compota feita pelas habilidosas mãos da mãe. Na altura dos meus dezassete anos, a mãe já lograra arranjar um emprego. Mas, há muito, que era totalmente autónoma, extremamente zelosa dos meus deveres e, na mesma medida, cuidadosa, poupando-lhe horas de trabalho nas tarefas caseiras. Fui menina; contudo, aos dez anos, lembro-me muito bem de conseguir arrumar a casa sozinha e de cozinhar, ainda que, neste caso, sob orientações da mãe. A par, quase em segredo, devorava livros da Biblioteca Calouste Gulbenkian que escondia por debaixo dos livros de estudo. Esgotadas as peripécias do género aventura dos sete, a curiosidade detinha-se nas prateleiras dos livros interditos à minha idade. O Sr. Lemos sorria e deixava-mos requisitar. Deste modo, apesar do desterro geográfico mas, creio, que também político, em que o corpo cresceu, a ânsia de viajar por novos mundos era já tão natural que me aventurava em questionamentos, sempre que algum forasteiro se inseria no grupo de amigos.
Andava no 6.º ano, atual 10.º ano. Esplanada do café mais emblemático de então – soube, mais tarde, já depois do 25 de abril, palco de discussões e reuniões anti-regime. Falávamos do país, eu e o recém chegado, de regimes, embora fosse uma simples curiosa na matéria. Confidenciava-me que vivíamos num país capitalista. De imediato exclamei “Como, se somos tão pobres!”. “Fala baixo, fala baixo”, disse apressadamente o Sílvio (penso que era esse o seu nome). “Porquê?”, ripostei quase de imediato. Penso que devo ter ficado automaticamente vacinada para qualquer regime totalitário, após a explanação do Sílvio. Andara pela Europa. Sabia do que falava…Após algum tempo deixei de o ver. Deve ter continuado o seu périplo, numa espécie de evangelização sobre a ignorância em que se vivia. 

Odete Ferreira

Em 2014, a Pastelaria Studios Editora lançou o desafio "Onde estavas no 25 de Abril?". Participei nele, escrevendo este singelo testemunho que vou divulgar no blogue, diariamente, dividindo em 4 ou 5 partes. Está publicado na Coletânea 25-04-1974, da mesma editora.

sábado, 15 de abril de 2017

Santificado é o teu nome em mim


 É da pedra a ressurreição,
a dor sangrada do chão,
onde todos os cansaços se sagram e consagram,
no cume de um monte de oliveiras
e um céu de pão e vinho prometido.

Em ti, soube do sentido das palavras,
da agonia da desesperança,
da descrença dos desiludidos,
do descomedimento dos aflitos,
da surdez dos gritos na pele sofridos,
do esmagamento da cruz pela curva dos ombros.

Por ti, soube do significado da prece
e da aceitação dos males do corpo.
Resignadamente, mas com os olhos postos
num mundo onde já moravas, falavas,
sem calvários a prender o sorriso:
dos silêncios guardados em jejum
e dos dias santos, guardados
porque, em nós, santificados,
no recolhimento do divino quarto
onde há muito a luz era fiel aos contornos.

Por ti e por mim, avó, Feliz Páscoa!
Salvífico desejo. Agora e sempre. Amém.

OF (Odete Ferreira) - 12-04-17
Fotografia de Matt Molloy

segunda-feira, 10 de abril de 2017

O éden que trago no olhar


Matizo o silêncio das minhas escarpas,
o xisto da dureza dos meus montes,
caldeados de amarelos, verdes e roxos,
em olhares profundos, esganados entre graníticas correntes…
E assim me quedo, recolhida do mundo,

pois que outro mundo, por trás os montes me perseguirá,
na angústia de espíritos famintos,
rostos cegos à cor da beleza
e corpos entrevados por força do destino…
E assim me espanto, desavinda deste mundo,

pois que outro pasmo, por dentro destes mundos me clama,
me eleva, me enleva, me toca e dulcifica,
me recomenda nas rezas pela noitinha,
me esperança nos ninhos a fervilhar de vidas…
E assim me (re)encontro nestes macios silêncios,

pois que estes silêncios me cantam epopeias,
as de gentes de um antanho maior,
arados teimosos a amaciar a terra dura,
ecos de ais a invocar proteção divina…
E assim me escrevo e me sou,

parida de nobre poesia,
indómita brisa a soprar horizontes
onde mar e céu, de uma só cor,
guardam o éden que trago no olhar.

OF (Odete Ferreira) – 29-05-16 
Obra de Graça Morais