sexta-feira, 24 de março de 2017

Sei do tempo


Sei do tempo pelos rebentos das pedras virgens
e pelos recortes do sol na geometria das traseiras,
redesenhando os canteiros fecundados
em outro tempo de que nada sei.
O que em mim é mistério
revela-se nas coisas simples
e no mundo que invento
pelo olhar de dentro.

Verde, tão verde, é então a cor das palavras.
E o rio, que me lava a alma, toma a cor dos meus olhos.

Silencia-me o canto da terra a subir o tom,
rasga-me o ventre o fruto a fazer-se,
chora-me o orvalho na pétala de cada evocação,
quando este tempo se declara em exuberante paixão.

É estreito o gesto de abrir a janela
e trôpego o passo estremunhado.
Batem asas os pássaros dormidos nos cepos,
que foram árvores encorpadas e desmesuradas
no orgulho de tocarem o céu. Que hoje esverdeou.

Sei do tempo pelo povoamento do pátio das traseiras.
E pelo desordenamento que traz a primavera.


OF (Odete Ferreira) - 22-03-17
Obra de Vladimir Kush

sexta-feira, 17 de março de 2017

Também moro nos olhos das paredes


Também moro nos olhos das paredes
de musgo a adormecer as pálpebras,
sonos profundos como nas histórias de encantar,
onde os finais desenham sorrisos felizes.

Os suspiros, meros sopros de primavera,
bebi-os na liberdade das fontes
e na igualdade das sedes.

Mas há olhos nas paredes
que sofrem invernos de gelos,
pedras de ódio no arremesso da raiva
e o musgo, que seria cama de nascimentos,
vai na enxurrada das tempestades.

Também há dias bonitos nos olhos das paredes
e luas a escreverem poemas líricos e idílicos
quando o amor é apenas amor.

Por isso, os olhos das paredes se atalaiam
no impedimento de vagas de cimento.

É preciso deixar abertos os olhos das paredes.
Onde moram olhos. Para lá dos meus.

OF (Odete Ferreira) – 16-11-16
Arte de Tal Peleg 

quarta-feira, 8 de março de 2017

Não te negues


É de ti o amancebamento com a luz
e de ti o seu nascimento.
Por isso, seguem-te as nuvens plúmbleas 
enquanto fazes o caminho,
num recorte de sonhos com sabor a natal
e fumos de espontâneas lareiras
nos montes ainda enevoados.
Que o calor ainda é pouco
na lenta madrugada.
Fenómeno que te soa a divino
enquanto fazes o caminho.
Sabes-te estrela d´alva
e fonte nascente do amor
que há de ser criação.
Sabes, ainda, de tua resplandecência
quando a noite escurece o dia.
Por isso, não te negues,
quando te chamarem mulher.

OF (Odete Ferreira) – 08-03-17
Obra de Anna Dittmann

quinta-feira, 2 de março de 2017

Do pensamento


Não queria amar-te tanto,
nem ter-te no miolo do meu pão,
em momentos de arrelia,
em circunstâncias pegajosas,
vermes a esventrar a terra virginal…
Amofinas-me, então. E vences.

Acodem-me, lestas, as palavras
e sou capaz de levedar o tempo,
de acomodar o espaço num único quarto.
E todos os instantes que sou
se exultam em ferventes escorrências.

Então, sim, amo-te em demasia
e afadigo-me pelos esconsos corredores da casa.
Transparente e volátil, apareço e desapareço
por entre portas suficientemente abertas,
onde me pulso, me penso e me palmilho.
Me defino e indefino. Subtilmente.

Diz-se dos contrários, o sentimento.
Mas é do complexo, o pensamento.
Árvore perene. Em si mesmo.

OF (Odete Ferreira) – 22-02-17
Obra de Anna Dittmann

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Linha (do) Tua


Chamaste-me? Aqui estou,
remendada por agulhas
que já não estarão
num amanhã fechado
por gente além Marão.
Foram remendos, foram consertos,
a linha que costurava pontes
entre as montanhas rudes
mas sapientes – das gentes –
e os sonhos nas grandes urbes outorgados,
cartas de alforria a lembrar o senhorio…

Corriam os tempos à mercê de relógios acertados
e olhares concertados na precisão dos gestos.
Partida! Silvo a esvaziar a espera,
ânsia apesar do enjoo,
o balanço a embalar o medo,
a rocha a pesar nos ombros e a linha
– sempre a linha – a serpentear o rio,
cosendo a vida, soltando os nós,
emaranhados entre pedras,
compondo músicas desafinadas,
ecos a chamar as encostas…

E o voo acontecia
no cimo da montanha que não via
abrindo as casas de botões de sol
que apertavam os vestidos de rapariga.
          (…)
Pouca terra, pouca terra.
Foi-se a linha. Foi-se a terra.
Alimenta-se o lago. Pouco a pouco.
Submersa fica uma história. Sem aplausos.

OF (Odete Ferreira) – 06-09-16
Foto – Odete Ferreira 

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Hinos

Há um ano, em 17-02-2016 escrevi assim:

Entre quem é

Não Os senti chegar. É sempre assim. Nunca se anunciam. Também nunca Os toquei. Conheço-lhes as manhas, por isso já nem disfarçam uma pretensa capacidade de surpreender. De dez em dez anos, entram na História para poupar palavras e fôlego. Ao Homem, claro. Ao Universo, tanto faz. Pelo menos à ideia que dele tenho, tão relativa quanto ingénua. A minha filosofia, vulgo vida, não passa de um rabisco fácil de redesenhamento numa outra que virá. Por isso, só a mim (e a uns poucos) é que Eles têm sentido. Cada Um é narrativa de muitas narrativas. Com índices longos e vivazes. De dez em dez anos, também Os abrevio por décadas. Automaticamente. Mas, este ano, estou mais reflexiva e não me apetece abrir um novo índice sem lhe criar uma identidade. Até por causa das estatísticas. Como cidadã, tenho o dever de me preocupar. Qualquer dia, ao ouvir que uma sexagenária fez isto ou aquilo, estarei de consciência tranquila. Assumo o meu novo estado. União de facto. Com a década. Doravante, o caminho poderá ser ziguezagueante e convém estarmos unidas. Para o que der e vier.
Estou feliz. Ela também.
“Daqui a dez anos, renovaremos os votos”, dissemos.

E Eles, que nunca se anunciam e são, naturalmente, desapegados, sorriram. Pareceu-me mesmo que piscaram o olho à nova inquilina. Afinal, não havia tempo a perder. 

Odete Ferreira – 16-02-16
http://portate-mal.blogspot.pt/2016/02/entre-quem-e.html#comment-form

Hoje...
Ano Um
De facto, não havia tempo a perder. O que intuía (e a intuição não se explica) não se fez esperar e anunciou-se intenso e avassalador. Tomou-me o tempo e possuíram-me os espaços. Encheu-me a alma e cansou-me o corpo. Desarrumei e arrumei. Sosseguei e alvorotei.
E sorri! Tanto!
Fui dando notícias deste ano um da década dos sessenta. Quem me acompanha nestas partilhas, sabe do frenesim que o atravessou, sobretudo dos frémitos que me emocionaram. E sabe, também, do riso que me atoleima. Este ano um depois da década (em estado de união de facto com ela) foi e é o primeiro do resto da minha vida.
Afinal, não há tempo a perder…

Para o ano, cá estarei para o Ano Dois e depois do primeiro de vida do meu menino.
Agradeço a vossa carinhosa presença. Afinal, são parte dos meus frémitos.