sábado, 27 de outubro de 2018



Voragem

Na aquiescência da voragem dos púlpitos,
perdem-se as horas quietas nas varandas
da secagem dos frutos.
Parece desnecessária a mastigação
dos entardeceres acompanhados de copos de três,

não os reconheço, não lhes tomei o corpo,
mas sei deles porque a afeição telúrica
das gentes da minha memória
honravam os pretextos para o escancaramento das portas.
E as pedras dos muros eram testemunhas
da veemência das falas e dos braços roliços,

a segurar mundos. Mundos em que o silêncio
era pesado apenas fora deles.
Dentro, os ecos eram sinais de vida,
púlpitos autênticos sem fake news.
Com rostos abertos a olhares viris, sem medo,

e as crendices, que habitavam os gestos,
uniam as almas crentes.
Neste tempo, de redes com cantos de sereia,
asfixiam-se peixes. Sobretudo,
os que teimam em manter as guelras limpas.

Odete Costa Ferreira, 27-10-18
Direitos Reservados
Obra de Rosi Costa

terça-feira, 21 de agosto de 2018

Notícias d´Aqui

Não me defraudou o tradicional espectáculo piromusical levado a cabo no dia 10 de agosto, pelas 23 horas, impossibilitado que esteve (e bem) de abrilhantar as festas da cidade e de N. Sra do Amparo, no dia 4 de agosto, devido ao alerta vermelho emitido pela Autoridade Nacional de Proteção Civil para o território nacional. Superou, mesmo, as minhas expectativas, quer pela espectacularidade, quer pela fantástica moldura humana que se assenhoriou, literalmente, de todos os espaços da zona ribeirinha. Se dúvidas houvesse quanto à decisão de honrar o compromisso com a empresa contratada e de não privar os mirandelenses e todos os forasteiros deste evento, a presença massiva de pessoas na cidade sufragou-a, de forma expressiva.
Habituada que estou aos fantásticos eventos de fogo de artifício na minha cidade, já não é fácil surpreender-me. Aconteceu, contudo, este ano. Arrepiei-me em muitos momentos, sobretudo quando senti uma total sintonia entre a música e a coreografia do fogo, transportando-me a um patamar quase divino. Vendo, no dia seguinte, o direto que o canal NTv fez, a partir do Hotel D. Dinis, percebi esta sensação. O empresário apelidou e espetáculo de "Divinus". Pois bem, conseguiu-o! E, ao meu espanto sentido, acresceu o respeito pelas pessoas que sabem fazer bem.
Mas tive outros espantos, digamos, mais viscerais. Perante a excepcionalidade verificada sobre a localização do luna parque na zona verde,  confesso que a aspereza manifestada contra os vários decisores envolvidos, sobretudo contra a atual autarquia, por muitas pessoas que sabiam, de antemão, que o assunto seria fraturante, me tirou do sério. Aliás, sempre que se efetua uma requalificação na zona ribeirinha e, atualmente no espaço envolvente do santuário, a localização das diversões transforma-se numa bola de pingue-pongue. Diria mais: parece haver uma embirração, quase genética, contra estes equipamentos que fazem parte intrínseca das festas da cidade. São tão nobres quanto outros equipamentos e conteúdos festivos. Não se pode ter sol na eira e chuva no nabal. Requalifique-se, mas (re)pense-se o espaço público, as pessoas e a sua satisfação!
E que satisfeita me senti na revisitação das diversões! O Ivo teve a sua primeira experiência de condução nos carrinhos; eu e a mana, apossamo-nos de uns cavalinhos, no carrossel, onde se pavoneava um cobrador de rabo-de-cavalo postiço e chapéu à cowboy! Não escrevi um poema, pois há poemas que não consigo escrever. Basta vivê-los!
Tal como a famosa e peculiar noite dos bombos, evento que se constitui romaria de afetos, de sorrisos, de abraços, unindo os mirandelenses, independentemente de qualquer credo e condição humana.
O tempo avança, inexorável e não é curial apressá-lo, mas não deixo de me conceder um brilhozinho nos olhos ao pensar que, em breve, o meu Ivo fará parte desta história.

Odete Costa Ferreira,  14-08-2018



Ivo, 19 meses, na terra do pai e avós

Fotos do fogo de artifício : Hugo Reis

(Após um curto período de férias, penso regularizar as minhas visitas aos blogues)

domingo, 3 de junho de 2018

Intimidades

Intimidades I
Respirei fundo como liberdade a fazer-se sopro numa brisa tépida, retemperadora, redentora de preguiças egoístas. Como se culpa fosse a desatenção dos últimos tempos, o desvio do olhar para outras histórias, o resguardo das vozes que me correm nas veias. Posterguei a intimidade das palavras minhas, o seu apelo imediato, a urgência de pousio no branco do papel.
Respiro fundo. E vou-me reconciliando, como alívio após o cumprimento de promessa. Como remédio de toma inadiável em distúrbios emocionais. E não são as palavras doença e cura? Feitiço e exumação do desperdício? Depuração e elevação?.
Cadencio o sopro, intermedeio o conflito e, pouco a pouco, deixo-me possuir por todos os instantes de leveza, por todas as cores, por todas as melodias. É cinzento, o dia, apesar de quase maio. Mas sorrio, sorrio. E nem dou conta das chamadas perdidas. Dos ruídos comezinhos. Do afeto das coisas cuja maternidade reclamam. Das conversas que até podia escutar, de tão próximas.
Estou só e quero-me só. Em momentos destes, inclino-me, levando o corpo para dentro, como se fora aviso pespegado na porta de um quarto: é favor não incomodar!

Odete Costa Ferreira, em 29-04-18, Flor de Sal, Mirandela, num momento de respiro entre o tanto que me tem assoberbado, ultimamente.




Em 23 de abril decorreu a fase regional do Concurso Nacional de Leitura, nas Bibliotecas Municipais. Na minha cidade, a obra escolhida para os alunos do secundário foi "Perguntem a Sarah Gross" de João Pinto Coelho. Integrando o júri  e decidida a estrutura da prova, uma espécie de tertúlia, foi desafiante ler e analisar a obra e estar neste "conversatório" com duas excelentes alunas, em termos de conhecimento da obra e posicionamento crítico face à trama e às várias mensagens narrativas.

Intimidades II

Missão cumprida , num projeto ousado, considerando o escasso tempo para o executar. Impossível mesmo, não fosse a teimosia que supera circunstâncias adversas, emoções à flor da pele e factos exigentes de horas. Mas ei-lo, apresentado ontem, dia 26 de maio, integrado no Festival Literário de Bragança.
Riquíssima de conteúdo e convidativa na forma, a coletânea “Gentes e Lugares - Contos e Contas de Autores Transmontanos”, edição da Academia de Letras de Trás-os-Montes (ALTM), leva muito da alma dos seus autores, associados desta agremiação, da qual sou coautora, com o conto inédito Maria Alcina e na qual estive deveras envolvida, enquanto corresponsável pela coordenação, correção e revisão de textos, assim como outros elementos da direção da ALTM, sobretudo a sua presidente.
Foram de quase clausura, os últimos tempos, mas profícuos em termos de resultados pois, além deste projeto, outras atividades literárias possibilitaram-me a reabilitação da palavra junto de públicos que queremos ver a dignificá-la e a enriquecê-la.
Entre Intimidades I e II, decorreu, sensivelmente, um mês. Um mês de pouco respiro pessoal mas de sopros benfazejos... Aquieto-me junto ao meu rio e restauro o olhar mergulhando-o nas suas águas calmas. Chega-me, nítida, a familiaridade deste espaço onde, de novo, me respiro e inspiro. Curiosamente, hoje o dia também não está radioso de sol, mas há música na alma e uma canção a estremecê-la.
                                                                                   
Odete Costa Ferreira, em 27-05-18, 12:45, Flor de Sal, Mirandela

Testemunhos em imagens
Oficina de Escrita
Festival Literário de Bragança - Moderação de uma das mesas de Poesia e Prosa, da responsabilidade da ALTM


Apresentação da coletânea, em 26-05, no Auditório Paulo Quintela




Registo fotográfico detalhado em:

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Um dia, foi o dia!


Perdi a conta às escaleiras
que na espera subi e desci.
Adiei o sonho na voragem
das coisas que fazem os dias.
Ignorei o arrepio dos apelos urgentes
das gentes que me são pertença.
Esqueci o frémito dos voos rasantes
entre-os-montes deste granítico reino.
Permiti que as cordas das guitarras
ficassem ressequidas e emudecidas.
Deixei que a voz enrouquecesse
à míngua de frutos frescos e sangue novo.
Escrevi versos de musa
A usurpadores de palavras limpas.

Mas todos os dias me vestia de novo,
trazendo um recital de poesia ao meu povo.
E folhas brancas com palavras desalinhadas.
Nos passos, a leveza de um cântico prometido
e uma nota que não identificava na escala.

Um dia, não precisei de um vestido novo,
tampouco de identificar as notas na escala,
pois novo era então o dia.
E a música que no meu peito ardia!

Odete Costa Ferreira, outubro de 2017
Direitos Reservados
Foto: Mirandela

(Porque é abril em Portugal e porque houve outro abril na minha cidade, com a mudança do poder nas últimas autárquicas, só podia escolher esta data para partilhar este poema.)

sexta-feira, 30 de março de 2018

Meus olhos primavera


Arte de Christian Schloe

Sacrílego, o gesto de antecipação
da cor, no tempo da gestação.
Feminino e vibrante, o pulsar
no resguardo da chuva precisada.
Arrepio da palavra de vento fustigada.
No teu ventre, útero imenso,
germinando colos de alvorada,
ainda dormem os fetos e as cores
que cobrirão os dias da terra.

E eu, sentada, escrevo versos pacientes.
A exaltação tem hora marcada. Anuncia-se
de verde. Serão, então, meus olhos primavera.
Odete Costa Ferreira, 14-03-18

Março fez-se no feminino: mulher, palavras, poesia...




Em Montalegre, Biblioteca Municipal




No IEFP, Chaves, colóquio: "Das palavras ao poema"



Na Maia, 24-03: apresentação da Antologia Poesia Portuguesa 2013-2018 (coautoria)

Desejando uma harmoniosa quadra pascal, deixo-vos a última estrofe de um poema:

"Veneranda, a arca do teu pão,
alimento do corpo e migração espiritual,
chega-me intacta.
Recebe, das minhas mãos, o teu crucifixo,
da tua boa, redenção.
E é Páscoa. Em nós." 
Odete Costa Ferreira, 28-03

quinta-feira, 8 de março de 2018

A vida que te é (de)vida


Obra de Brooke Shaden, We are Infinite

Se te souberem dizer em que tempo,
em que lugar, ou em que ato
te soubeste culpada,
é porque de sanidade
ficou órfã a humanidade.

Pertencerá à terra, a honra do teu legado.
Pertencerá ao pó das sementeiras primaveris
e dos ventos de feição a exortação da
tua palavra, do verbo primeiro, do sentido
dos cabelos destrançados nos braços da criação.

Será dos enxertos necessários,
o ensejo da renovação da seiva,
da decantação do sangue,
da libertação das palavras
- que fendem os teus direitos, mulher!

Se te disserem que nasceu um mundo novo,
silaba as palavras, solfeja os sons, sustem as raízes.
Pelos tempos, pelos espaços e, sobretudo,
pelos livros sagrados da tua religiosidade.
Firma-os em ato solene, com assinatura de poeta,
Numa caligrafia redonda, inquestionável à escuridão dos tempos.

Odete Costa Ferreira