terça-feira, 28 de novembro de 2017

Meu corpo de água, meu amigo!


Meu corpo de água, minha pele, meu alimento, respiração e inspiração. E ais de lamento, se te palpo o corpo emagrecido. Contra os céus, não posso revoltar-me. Contra os desmandos dos homens, não meço forças, salvo uns insignificantes versos ou dedos de prosa que espalho por aí. Contra os hábitos de desperdício, há muito que ganhei a batalha. Penso mesmo que, desde que me conheço como pessoa de direitos mas, sobretudo, de deveres. Vem de longe o meu amor desinteressado. Tanto que trago o teu corpo no meu…
Trajam de verde, os meus gestos e as palavras que, colocadas num sopro de verdade e guardiãs do teu corpo de água, repreendem, severamente, a indiferença de outros…
Maldigo a semântica que fez uso da crença na tua eternidade, como se de uma vingança se tratasse, perante a perenidade dos homens. Egoísmo atroz. Desamor. Assassinato de emoções e sensações. Privação da condição primeira da sobrevivência do que é ser humano: o imaginário direto, vivido olhos nos olhos e legado na manifestação artística. O meu neto já não poderá atestar do remanso de que lhe falarei, nem das cores vivas, sem manchas, nem dos cheiros frescos, impolutos…
Meu amigo, meu corpo de água! Prometo continuar a não te falhar. Prometo não deixar que o teu corpo emagrecido continue a definhar pela incúria dos teus falsos amigos. Que se escudam em discursos palavrosos, nos exatos momentos da incidência das luzes nas suas bocas imperfeitas. Pois que, perfeitas, são as bocas que te beijam…

Odete Costa Ferreira (texto e foto) - 20-11-17

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Mulher-dor


Penduravas nas cordas a íntima roupa,
como oferenda a um deus redentor.
Ia-se o lamento na levada do sol. Uma benção!
Tal como os frutos dados ao sequeiro,
para mitigar as fomes do longo inverno;

o inverno que te caiava o rosto,
fazia tempo; o tempo que te ressecara o viço,
te revirgindara no preto da íntima pele.
Culpavas o fumo do lacrimejamento
que te inflamava os olhos verdes,
já apequenados e secos de gente.

E era fumeiro, em pleno verão;
do bulício do regato fizeste retratos imprecisos.
Que mastigas, chamando
a saliva que te desfaz o carolo de pão.
No teu rosto, mulher-dor, só vejo camas de espera.
Onde te deitas. Há muito, só!

Odete Costa Ferreira, 11-10-17

Obra Edvard Munch

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Por algum tempo


Chega-me o cansaço do vazio espaço.
Por algum tempo, o olhar ficará inquieto,
vagabundo do pátio, sem o abrigo da casa-jardim.
É a nostalgia dos gestos matinais
e do bom dia que o café não exalará,
no alpendre dos pensamentos veraneantes.

Suspira-me a alma, numa confidência muda,
a amarelecer as hastes do tempo verde.
Bem sei que é sinal da mudança da hora,
do fechamento do sol à intrepidez dos dias,
do recolhimento das horas largas de sol.

Por algum tempo, nada saberei do amor
jurado nos braços nus das esplanadas.
É o mistério a pulsar o passo que traço
e repasso em nova geometria,
inversa à nitidez das coisas,
um quase lusco-fusco da claridade.

É preciso ir para lá do jardim, passar o muro,
rebaixar a altura para apanhar o colorido
que se oferece numa profusão de tintos
que não sei manejar; sei, apenas, retirar a essência,
o pó que realçará as tuas maçãs do rosto, mãe.
Por algum tempo, será outono. Mas, em ti, não.

Odete Costa Ferreira, 27-09-17

Obra de Olga Blinder

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Fez-se história, em Mirandela!


Foto de Odete Costa Ferreira
(Momento em que se ouvia a nova presidente da Câmara, Júlia Rodrigues, pelas 23H, na Rua da República)

Houve Outro Caminho, em Mirandela! Mirandela acordou! E foi mais que vitória! Foi o 25 de abril autárquico! Que julgávamos impossível, num bastião do PSD. Que orgulho sinto das pessoas que ousaram abrir os olhos! Feliz, muito feliz! Houve lágrimas, abraços e sorrisos de orelha a orelha. Houve pessoas que se fizeram ao caminho, com a roupa que traziam por casa, do Porto a Mirandela, para abraçar a candidatura do PS  "Há outro Caminho" e fazer a festa. É também nestas pessoas (ainda jovens) que têm de estar longe da terra, mas que a têm no coração, que acredito serão  FUTURO! Não sei se vou conseguir dormir... Muita emoção, um arrepio de pele, um sentimento novo, um alvoroço de adolescente a evocar o primeiro de maio de 1974.
E um desejo de, daqui a umas horas, olhar o meu rio e dizer-lhe "Afinal, o teu povo soube ver que havia "Outro Caminho".
Obrigada, gente de Mirandela!
Parabéns, Júlia Rodrigues! Parabéns a todos e todas que fazem parte da candidatura! Parabéns a todos e a todas que deram corpo a este projeto pelo empenho e trabalho!
Parabéns Mirandela e concelho!

Odete Costa Ferreira, um registo escrito diretamente no blogue, sem grande preocupação linguística., isto é, ao correr da emoção... 

sábado, 23 de setembro de 2017

Ainda é cedo

Ainda é cedo.
A explosão de cores anuncia-se
num perfume cálido, com sabor a memórias.
Sem rasgo emotivo, numa ponderação avisada,
contraponto à asnice da pressa.
Ainda mal se anuncia a aurora,
já descerra a lápide da noite.
Que tem o seu encanto, de sonhos límbicos
a maturar perenes eflúvios;
os que ficam, no corpo aberto à floração das rosas.

Mas, ainda é cedo!
Soboreie-se, em íntima cópula,
o mosto, a compota rubra,
a delícia de beijos suaves.
E as palavras felinas que esbatem a nitidez dos sons.
Colha-se, em íntimo verso,
o canto vindimadeiro, a espuma das ondas,
a preguiça quente, o rubor do corpo.
E o prazer do poema soprado na brisa do entardecer.
Não tarda o equinócio de setembro,
mês medianeiro ou mensageiro.
De graças ou desgraças, sempre acontecendo
muito cedo, sempre fora do tempo…

Cerremos, pois, os olhos, amor.
E deixemos os lábios soltos para a renovação de promessas.

Odete Costa Ferreira, 18-09-17

Obra de Charles Courtney Curran

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Covinhas

Vem mansa a hora da brisa,

distendendo o sopro no alisamento do rosto.
O sorriso adivinha-se nas covinhas,
relicário de todos os mistérios do ser.
Só ela tem a chave mas são os outros
que se tentam no desvendar dos enigmas.
E ela deixa, de vez em quando,
uma pétala para chegar ao jardim.
Ou uma mãozinha curiosa
a bordejar as côncovas linhas.
Adejantes com este namoro,
abrem-se e fecham-se,
aparelhando-se com o olhar de espantos.
E, de repente, já não há rosto,
nem covinhas, nem linhas.
Apenas um girassol a abrir-se, a tomar todo o jardim.
Onde as vontades são momentos de verdade.

Odete Costa Ferreira, 23-08-17
Foto: Odete Costa Ferreira