sexta-feira, 23 de junho de 2017

De profundis

De profundis

Queimam-nos as palavras, por estes dias.
Numa dor que arde para lá dos dedos.
Gritam os silêncios, lancinantes.
Sabemos, agora, do inferno.
E da imolação de almas inocentes.

Têm nome, os cemitérios negros.
E o luto será expiação permanente.
As coisas tiveram posse e raízes verdes.
Os lugares, o espírito das pessoas.
As pedras, quando purificadas pelas águas,
contarão do suplício humano
e do inferno sem redenção.

Por elas, saberemos da cegueira dos homens,
do choro seco e da palavra ardida.
Do tição que ainda há pouco fora vida…

OF (Odete Ferreira) - 21-06-17
Por opção, não quis o poema acompanhado de qualquer imagem

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Cântico


Há perfumes que viciam a perceção destes dias.
Que me cheiram a felicidade.
E o verso inebria-se de futuro.
As palavras, vestidas de outros cantos,
creem-se possuídas de um mandato novo.
Do povo. E eu sou povo.
E sorvo os cheiros puros.
O das flores rebeldes que não devem ser colhidas.
Nem tolhidas.
Nem as pedras devem ser mudadas,
dos lugares da sua história.
Os rostos avivam-se da cor do rio e do mar.
O verde dos limos.
O verde das algas.
E de cheiros:
Dos barcos.
Dos Lusíadas que foram náufragos.
Dos poetas que se prometeram.
De mim. Que te canto. Porque me encanto.
E me solto. Numa lusitanidade que me perfuma o peito.

OF (Odete Ferreira) - 07-06-17

Obra de Júlio Pomar, Camões

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Por aí... Entre afetos (e outros cuidados*)


Uma das nossas primeiras selfies... 5 meses, hoje!


Feira do Livro, Mirandela


Um colega, um amigo. Sucessos! Bem mereces!


Na mesa: António Almor Branco, Presidente da Câmara, Virgílio Tavares, autor, Odete Ferreira, coadjuvação na apresentação da obra


Uma espécie de regresso à escola... Da minha parte. :)
Parabéns a todos os meninos e meninas pela recetividade manifestada aos desafios lançados, ao longo da apresentação da obra. Parabéns, também, aos seus professores. Foi muito gratificante estar neste evento, coadjuvando o autor e amigo Vírgilio Tavares. Momentos a reter..


Coautora, cinco poemas.
 Amanhã, 16H, 3 de junho, em Bragança:
Apresentação da Coletânea de Poesia "40 Poetas Transmontanos de Hoje", Academia de Letras de Trás-os-Montes, inserida na Festival Literário, 3ª edição.


Aguardo, com muito interesse...

*(e outros cuidados)
O tempo é sempre escasso para cumprir com tudo o que gostaria, principalmente quando outros cuidados se me impõem. Foi o caso das últimas semanas: além da prestação de apoio a uma familiar, por motivo de saúde (já ultrapassado e bem) , afeta-me um problema de índole alérgico, nos olhos e pálpebras. Penso que caminha no bom sentido, agora que foi identificado e iniciado o tratamento. Nada, contudo, que afete a meu quotidiano. Apenas mais ausente do virtual. Obrigada a quem tem passado por aqui.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Havemos de ser peregrinos


Havemos de ser peregrinos
quando nada do que é palpável
nos suster as asas.
Faremos, então, caminho,
pelo íntimo desejo
de sermos a maciça pedra,
lisa e cheia, que aponta o voo.
Indiviso, polifónico,
como a palavra que escutamos
no indiscreto eco das falas
entre os montes ávidos e libertinos.
Que nos arrastam em ais subliminares
e, sibilinos, nos enviam os sinais.
E, sabemos, havemos de ser peregrinos.

Havemos de ser fumo, fogo e fósforo.
A luz que nos lateja nas têmporas,
a água que nos mata as sedes.

Havemos de ser o espaço e o tempo.
Num sobrevoo redondo.
A rasgar caminho.

OF (Odete Ferreira) - 10-05-17
Obra de Carlos Calvet

(Informo os amigo e amigas que respondi aos comentários deixados na anterior publicação "Perceções I")

domingo, 14 de maio de 2017

Perceções I



Ontem, na espontaneidade que os arroubos (e a urgência de dizer, como me disse, há uns anos, um amigo das lides poéticas) me arrancam, escrevi na rede social FB: Definitivamente, Portugal está nos olhos, nos ouvidos e nas bocas do mundo, na sequência das emoções diretas que os últimos eventos (visita do Papa Francisco e presença do Salvador Sobral no festival da eurovisão 2017) me suscitaram e no momento em que, quase em cadência, os júris nacionais (18, disseram no final) atribuíam o máximo de pontuação à canção portuguesa, sempre cantada em português, resistindo (os irmãos Sobral) ao mainstream, fazendo emergir o olhar de dentro, o sentimento, a alma.
E isto, para mim, é a manifestação do sagrado que existe no Homem. E a minha crença que este Homem nu prevalecerá quando os abismos estiverem prestes a chegar a um ponto do não retorno. Ou quando muitas das narrativas que se desenrolam, por esse mundo fora, em cordas bambas, pareçam previamente condenadas a uma atração fatal.
Depois, a mensagem da “Mensagem” de Fernando Pessoa, baila-me por entre as minhas perceções. E o último verso do poema “Infante” (Senhor, falta cumprir-se Portugal), soa-me no peito como alerta, como uma convocação permanente. Individual e coletivamente. Ontem, senti ambas. Ontem, Portugal cumpriu-se.

Odete Ferreira, 14-05-17
Foto retirada do google
(Deixei um comentário para os amigos e amigas que estiveram na última partilha)

domingo, 7 de maio de 2017

Amor, apenas...

Quando te olho 

E cada passo é de sol, 
adejante movimento
entre o tímido sopro
e o repentino vento
que te rasga a boca num sorriso
e me esboroa por dentro.

E cada gesto é de sol,
cativante coreografia
entre dedos de leveza
e pezinhos de firmeza
que me levam numa dança tonta
na sofreguidão do voo.

E cada sibilo é de sol,
eco do som em que leio palavras,
que me dizem, na mudez do amor,
ainda um morno lago de murmúrios,
num mar que me há de ser ser luz e espelho .

E todos os dia são de sol,
exercício de adivinhação,
leitura de linhas de expressão,
maias de emoção no meu peito.
E momices com sabor a canção.


OF (Odete Ferreira) – 03-05-17
O Ivo, 4 meses, num dos momentos de reação às momices da avó


Oro-te, mãe
 
Oro-te, mãe. Todos os dias. Diria mais. A cada momento em que, de mim, sou consciente. Da inconsciência não sei dizer, apenas da perceção. Sobre ela, sim, sei falar, ainda que toscamenre. Não tenho a arte da tosquia. Por isso, fica sempre a lã suficiente no meu corpo, de onde o cordão umbilical nunca se despegou e no qual se iniciou, se desenvolveu e perpetuou esta perceção de te ter sempre em mim. E sempre inteira! Com tudo o que me arrelia e com tudo o que me impele a ter-te em mim. E tudo é o todo que abarca a minha memória. Que, bem sabes, nunca se apresenta do mesmo modo. Como uma visita. Umas vezes, bate-nos à porta com um sorriso largo. Como se viesse dar as boas festas. Outras, com um ar circunspecto, sabendo, de antemão, que são esses os moments do amor pleno.
Hoje, nas rosas que colhi do jardim, vai o sentido maior deste dia: o da celebração de existência: a tua, a minha…E a do nosso menino que beijaste, emocionada (outra vez), há uma semana.
Oro-te, mãe minha. Sem prece previamente definida. Conforme o tamanho do momento.

Odete Ferreira, 07-05-17
Foto: Odete Ferreira (a mãe com 18 anos)