Nunca
te escrevi,
mas
recordo…
Sentada
na soleira da porta,
em
dias de estio, sufocantes
dando
pontos na roupa
–
que bem ficava –
unindo
pontos de sonhos
que
sonhavas
no
silêncio dessas tardes.
Chegava
da escola,
cheirava
a requeijão.
Comias,
deliciada.
Meu
irmão acompanhava
mas
eu detestava.
Nunca
te escrevi,
mas
recordo…
Encurvada
no chão que esfregavas,
limpo
de nódoas, cheirando a rosas.
Acocorada
no lavadouro
improvisado.
Pedras
irregulares de um rio juncado
salteado
de águas estagnadas,
insalubre.
Mosquitada
que
sacudias das faces cansadas.
Roupa
alva que eu espalhava
pelos
jogos de formas ovaladas.
Em
fantasia era personagem heroína.
Ali,
era já mulher menina.
Nunca
te escrevi,
mas
recordo…
a
mulher de força anímica,
na
arena da vida lutadora,
a
mãe de coração aberto
que
cedia, a meu pedido,
a
malga de caldo à amiga
da
escola. Na sacola pão,
queijo
e azeitonas. O caldo
aquecia-lhe
o magro coração.
Nunca
te escrevi,
mas
recordo…
A
funcionária zelosa,
a
vizinha prestimosa,
o
olhar expressivo,
o
cabelo em carrapito,
a
roupa sedutora
a
atitude generosa,
o
sorriso acolhedor
num
sentir sofredor.
Hoje
escrevo
o
que és, mãe!
A
casa do teu ser,
o
sol de cada amanhecer,
o
legado de um passado,
o
presente, em mim, incrustado…
OF - Foto Odete Ferreira
Poema incluído na Coletânea Mãe 2013





