sábado, 14 de setembro de 2013

Dou-te pedacinhos de mim

Dou-te pedacinhos de mim,

meu amor,
desiguais, é certo, mas sempre
a minha totalidade…

Olhares de silêncio
numa profundidade
que vai para lá do infinito.
Lágrimas que seco
antes do nascimento
numa emotividade
aconchegada no meu ventre…

Ainda te sinto.
Ainda te vivo
como se crescesses
fora de um tempo…

Sabes, não tenho coragem
de te dizer
és meu amor maior,
agiganta-se na floresta selvagem
do meu ser
onde as orvalhadas manhãs
recebem as gotículas soltas
dos olhos esverdeados…

Sabes, mas tenho coragem
de te escrever em poema.
De desenhar o teu sorriso
e nele fazer a minha viagem.
De colorir meu afeto terno
e nele gravar meu amor materno.

Sim, meu querido,
tu és exemplo de inusitada coragem.
A que bebo quando sedenta desfaleço.
OF, 04-09-13

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Para ser sincera ignoro a verdade



Para ser sincera,
queria escrever-te um poema
das ausências forçadas
das falhas imprevistas
da luz artificial
em dias de temporal
dos afagos que guardas
para noites de sonho…

Mas a verdade é que não tenho direito
ao meu presente sentir. Imperfeito,
observando a vida que me sobrevoa,
sentindo a espuma do banho de mar
      (bolas de sabão
      que se imiscuem
      na brincadeira de crianças
      em quente dia de verão).

Mas talvez não seja mal nenhum
ignorar-me nesta interdição
e sim fazer-te o poema
que trago sempre à mão,
guardado no olhar velado
do doce salgado
que me escorre pela face,
algaliada na solidão,
ancorado no porto revolto
da maré que manejo a gosto.

Sim, sou pró contradição…
Mas amo-te…Por maldição
do feitiço virulento
de que padeço.
Alma catavento,
ignora as brisas suaves,
esquece o sabor do beijo,
despe a pele do desejo…
                         
Ah! Não!
Se deixasse de sentir
deixaria de sorrir…

OF       13- 02-13
Foto –  Autor desconhecido

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Encontros e Desencontros


Houve um tempo
para lá da linha do horizonte
(linha que me desalinha
a perceção do real)
onde fazia o estendal
de peças que arrancava de mim.
Desconstruí-me
na secreta esperança
de um encontro sobrenatural.

Dedos mímicos
desenhavam caminhos
por entre estrelas esmorecidas,
penosas do meu penar.
Vazia de corpo, minha alma
ansiava alimento de brilho solar,
vestes de deusa lunar…

Mas num cosmos perfeito
erradica-se o ser imperfeito
cuja insanidade
mora no peito…

No desencontro é que me encontro,
estado antitético que me equilibra.
Os encontros e desencontros
fazem-me emergir de momentos enfadonhos…
OF, 24-07-13  
Foto – Autor desconhecido

terça-feira, 13 de agosto de 2013

O aprendiz de palavras



“Estou apaixonado” – gritava a plenos pulmões o jovem sentado em pedra de xisto afunilando o sopro com as mãos, em côncavo ângulo, tal como fazia em menino, quando interrogava sobre o seu destino os montes que lhe sorriam ao vê-lo chegar, cantarolando canções por inventar.
“Estou…ou…ou apaixonado…ado…ado”, devolvia o eco que lhe beijava os ouvidos, afagando-os, retendo esse som como se estivera num daqueles concertos que via anunciados na televisão e, não podendo assistir, decorava o anúncio, reproduzindo-o mentalmente ou declamando-o para o rebanho que, por vezes, apascentava em dias que a escola lhe dava folga.
Do grito e do eco fez parceria, um dueto – aprendera nas aulas de educação musical – e, pouco a pouco, fazia nascer em ritmo rap rimas das palavras que, fazia questão, de aprender e apreender o sentido em cada dia da sua vida. Era um objetivo que cumpria escrupulosamente, elegendo como interesse primordial esse jogo, apesar de condescender ao grupo de colegas e amigos que o acotevelavam e lhe diziam “Vamos, o campo da bola está livre…”.
Saía, então, do único espaço em que era ele apenas e as palavras, o mundo encantado que lhe provocava arrepios de prazer. “Ainda me hei de vingar, seus desmancha prazeres. Um dia começarei a escrever as palavras nas folhas que restarem dos cadernos. Hei de brincar com elas. Quando estiverem suficientemente maduras, como os frutos a desprender-se da mãe árvore, colho-as e faço poemas em forma de bola. Preencho todo o campo e sereis obrigados a entrar no jogo das palavras”. Ria-se baixinho, antecipando um cenário do filme que havia de ser a sua vida.
(...)
Os outros? Achavam que ele, nesses momentos, estava a ter um ataque invisível. Mas ele era imprescindível no jogo! Tornava-o mágico. Ganhavam sempre. E sem saberem porquê viam nele uma espécie de profeta.
(…)

Odete Ferreira, 13-01-13
Foto – Odete Ferreira

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Soneto de mim



Se eu quisesse sentir-te na clareira,
desnudada em noite de lua cheia,
viria apetitosa à tua beira
e dizia-te o que escrevi na areia.

Se eu te pedisse que me amasses,
com toques de seda do oriente
e no desaguar do teu mar me deixasses,
viria alada em sela imponente.

Soltaria os cabelos entrançados,
enfeitava-os de amoras silvestres,
aspergia-me com água de rosas.

Se sinto teus lábios adocicados,
repelo a saudade destes sentires
e represo nossas bocas desejosas.
OF, 10-06-13 
Foto – Autor desconhecido