Escrevo antes de conhecer qualquer
resultado destas eleições autárquicas, tão atípicas, como dizia uma amiga. Tudo
pode acontecer, acrescentava. Por isso mesmo, a caneta apartidária exige-me este
escrito, esta partilha de um sentir ao longo de ações cívicas em que
participei, dando a cara por um partido e pelos seus candidatos. Aliás, já o
faço há um bom par de anos. Não consigo ficar indiferente. Não posso deixar de
exercer deveres pelos quais tantos lutaram. Há que honrar o legado de Homens de
Fé, de Homens que não se calaram, de Homens que nos outorgaram algo que é
inerente ao ser humano – LIBERDADE.
Na génese destas ações em que me
empenho, está um desígnio que vai para lá do momento, da conjuntura: a crença
no desenvolvimento pessoal das gentes pouco escolarizadas mas possuidoras de
visão. E notei diferenças…Uma atitude mais recetiva, um conhecimento da
realidade que vai para lá das pedras do seu espaço, a consciência de que ajudam
a escavar um poço sem fundo… Resignação, também, o que mais me dói, o que mais
me revolta. Ninguém devia criar este estado de ânimo nas pessoas. Crime, digo
eu, parafraseando uma série televisiva que via há alguns anos atrás.
Sabe, menina, desde o tempo de Salazar
que me mandam apertar o cinto. E isto nunca mais endireita, dizia-me um senhor.
Respondia com um silêncio e um olhar pensativo que só adensava a certeza de que
há muito se perdera a noção de decência…
E lá continuo partilhando algum do
conhecimento que possuo. Sem demagogia. Sem receio. Apenas porque sou assim e
tive o privilégio de festejar ABRIL já com alguma consciência, embora muito
pouco conhecedora do que se passava nas grandes urbes.
A democracia não pode continuar a ser
apenas invocada! Urge convocar rostos atuantes e possuidores de autenticidade no discurso, no
gesto, na atitude. Urge erigir um monumento à essencialidade do Homem e lutar
por um mundo onde o sol não aqueça apenas uns quantos…
Odete Ferreira, 28-09-2013
(Apenas hoje consegui tempo para fazer
sair o texto do manuscrito para o pc. De resto, já conhecem os resultados eleitorais e não seriam eles que me levariam a escrevinhar. São as gentes, sobretudo as mais solitárias, não por opção, as que
calam a minha alma e me impulsionam.)

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