Na disciplina de história (uma das minhas preferidas)
a quantas revoluções assisti pelas vozes de contadores de histórias, as minhas
encantadoras professoras da disciplina! Ainda hoje me lembro da professora
Cândida dizendo “Então o fulaninho…”. Eram histórias dentro da história. Uma
delícia, esses relatos! Às batalhas, às guerras, às revoluções dava-lhes um
condimento mágico, apesar da moldura de horrores que as precedia e se lhes
seguia. Era passado, agora era presente. E havia uma revolução, caramba e eu
iria assistir! No fundo, sentia um formigueiro de emoções…
Cada uma de nós lá ia conjecturando umas
coisas mas nada de substancial que me marcasse a memória. Lembro-me de proferir
um desabafo “Só não quero que haja fome”. Percebo bem esta verbalização. À
época a toda a conturbação social de que
tivera conhecimento em contexto educativo, estava associada a fome (então a
célebre frase de Maria Antonieta sobre a fome do povo “Qu´ils mangent de la
brioche” era bem a súmula da repulsa que agitava já o meu ainda imberbe sentido
de preocupação pelo outro, pelos sem voz, pelo desfavorecido da sorte..). Era
também o que mais me marcava nos relatos dos avós: a racionalização, as senhas,
as filas. E a literatura do período
realista estava bem presente. Consequentemente, todo este imaginário me levava
a recear tal efeito.
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Preenchida a manhã nesta deambulação pela rua
principal, o resto do dia passei-o por casa, seguindo avidamente as notícias
que iam passando na rádio e acompanhando as imagens numa TV ainda a preto e
branco. Fui montando o puzzle e, à medida que as peças se encaixavam, dava-me
conta do enorme feito do momento verdadeiramente histórico que estava a viver.
E, cá dentro, sentia um enamoramento irracional, uma paixão avassaladora por
aquelas pessoas, aqueles lugares, aquela gente anónima que sorria ao mundo com
pueril inocência. Tento que a minha memória de então não se deixe invadir pelo
conhecimento atualizado dos documentários, relatos e séries a que assistimos de
vez em quando, sobretudo sempre que se aproxima mais um aniversário da revolução.
E ainda bem. Quem não viveu os acontecimentos, tem de perceber a grandeza
levada a cabo por um punhado de gente que nos devolveu o principal legado incontornável:
a liberdade! Para mim, o direito primordial da condição humana. Assim, foco-me
na magia das imagens: um mar de gente anónima, o dito povo, nas ruas, audaciosamente
proferindo a plenos pulmões as palavras “de ordem”, como passaram a ser
designadas, como que libertando todos os gritos silenciados por anos de
obscurantismo; os jovens empoleirados nas árvores, assistindo de camarote aos
acontecimentos da rua do Carmo. Os cravos que adquiriram um estatuto maior ao
serem símbolo de uma revolução sem armas. E era no meu Portugal, de uma
pequenez geográfica, que se projetava ao mundo como referência… Percorre-me um
arrepio emotivo, evocando estes momentos. Afinal havia heróis de carne e osso.
Não os podia tocar, mas via-os e ouvia-os. Fazia parte do filme, não era apenas
um elemento decorativo num cenário imaginário. Este era um cenário real, onde
todos se sentiam atores principais. Com uma velocidade estonteante e uma avidez
contagiante, também na minha cidade (então vila) se viveu intensamente o 25 de
abril. Fui sabendo que, afinal, havia muita gente contra o regime; fui sabendo
quem tinha sido molestado pela PIDE; fui sabendo de reuniões secretas; fui
sabendo de tanta coisa. E aí, sim, o orgulho personificou-se. A minha terra,
situada num Trás-os Montes, esquecido, tinha homens e mulheres pensantes. O avô Mário ainda chegou a ser interpelado
pela polícia. Falava alto e de boca cheia. Estava catalogado, assim como tantos
outros que sofriam na pele a dureza da terra e o silêncio dos inocentes.
Odete Ferreira (testemunho iniciado no dia 23)