domingo, 7 de janeiro de 2018

Tributo a Alice Queiroz


    
O nosso último abraço - 5.º Aniversário da Hora da Poesia em outubro de 2016, programa de Conceição Lima, na Rádio Vizela.

    Na imensidão da festa da poesia, esperei pelo nosso momento. Disseste, depois do imenso abraço, isto anda para aqui tudo descontrolado, eu é que finjo que não é nada. Também nós fingimos, nestes últimos tempos, que não chegaria o dia da partida física. Uns, porque mais próximos geograficamente, talvez tenham conseguido domesticar a falta, mas eu, e tantos outros, que vivemos mais distantes, permanecemos num puro egoísmo, não querendo acreditar que a tua fonte de afetos pudesse ser finita!
    Faltar-me-ão novos abraços, novas palavras, novas flores… E, desta falta, só o tempo será alimento. Agora é dor, é luto. E sei que é preciso fazê-lo. Revisito-te, e revisitar-te-ei, nas palavras que escreveste e nos registos de momentos em que me permitiste entrar na tua casa-coração. Estarás sempre no meu, Alice, até que dele eu tenha consciência. Não sei que perfume era o teu, mas bastou um leve odor para que dele ficasse impregnada para sempre.
    Saudade eterna, amiga!


A Alice e o seu eterno companheiro, Rogério Barbosa, fizeram questão de estar comigo (abril de 2015) no programa  da Conceição Lima, Hora da Poesia, perfumando-me/nos...  Nas mãos da Alice, nasciam flores. Por isso, o seu livro só poderia ter um nome: Jardim de afetos

Odete Costa Ferreira, 03-01-18

(Alice Queiroz: 12-04-1942 – 01-01-2018)

domingo, 31 de dezembro de 2017

Crescimento


O meu menino, quase a fazer um ano, em casa dos avós paternos. Desta vez, foram quase cinco dias de plenitude. 

É inato! Para crescer, é preciso elevar o olhar e atirá-lo para lá da transparência. Assim, o que de mais profundo e sincero (vos) desejo para 2018, é que seja cheio de olhares límpidos, capazes de transformar a(s) opacidade(s) em transparência(s)

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Faz sentido falar de natal?


     Todo o tempo é diferente. Todo o espaço é diferente. Todos os lugares se veem diferentes. Como as pessoas. Nada de novo, portanto. Assim como o tempo, o espaço e os lugares que falam natal, encorpado da semântica, do significado, das circunstâncias, dos territórios em que é moldado. Como se fora uma veste talhada para um corpo. De preferência, seguindo as tendências da moda. O lado visual, atrativo, estilizado: um catálogo a ser vendido, após aturados estudos prospetivos. E quase tudo vai na mesma direção, num segmento previsível, terrivelmente sensabor. Após o enchimento dos olhos, quase piscos pelo excesso das luzes, sente-se o esvaziamento do balão, tocado por um presépio de musgo, timidamente colocado num cantinho da montra – global – entre a profusão de laços e laçarotes.
   Se assim é, faz sentido falar de natal? Invocar o natal? Escrever as cores de natal?
Sim, faz! Natal é mensagem e metáfora de humanidade: a sua alma, o seu imaginário (como um conto das mil e uma noites), a sua magia, o seu sonho, a sua fortaleza, o seu abrigo. Raiz e matriz. Sentido. Dádiva. Em si, para si e entre si. Um mandato do espírito, um mandato do amor. Um aviso aos homens de má vontade, num tempo em que se cultua o umbiguismo (e outros ismos), as reações timóticas, a frieza (e crueza) comunicacional das redes sociais, postergando os princípios, ancestralmente herdados, na conduta social, para uma segunda ou terceira vias – ou mesmo residual: o olho no olho, a mão na mão, a fala, como processos basilares de entendimento. E é disto que se trata nas falas de natal, na troca das Boas Festas. De respeito, de boa vontade. De humanidade.
   Consequentemente, não podemos deixar de alocar a frase feita: natal é quando o homem quiser. Então, que (re)nasçam homens e mulheres que sejam mensageiros de palavras e atos de verdade. E que seja esta a época inteira em que se renovam os votos, numa celebração milenar, nascedouro de homens de boa vontade. E que, neste ano de terra queimada, nos penitenciemos dos natais adiados e irremediavelmente perdidos, em todos os lugares, prometendo intermediarmo-nos com a única língua entendida por todos: o amor.
   Foi verde o nascimento do Menino. Só poderá ser verde o natal de todos os meninos.
   Honremo-lo! Agora e sempre!

Odete Costa Ferreira
Obra de Domingos Sequeira, acervo do Museu Nacional de Arte Antiga
Texto de opinião inédito (Contributo para a atividade proposta aos associados da Academia de Letras de Trás-os-Montes “Literatura de Natal”, publicado no blogue da ALTM e na página do FB)

A autora escreve segundo as regras do novo acordo ortográfico

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Meu corpo de água, meu amigo!


Meu corpo de água, minha pele, meu alimento, respiração e inspiração. E ais de lamento, se te palpo o corpo emagrecido. Contra os céus, não posso revoltar-me. Contra os desmandos dos homens, não meço forças, salvo uns insignificantes versos ou dedos de prosa que espalho por aí. Contra os hábitos de desperdício, há muito que ganhei a batalha. Penso mesmo que, desde que me conheço como pessoa de direitos mas, sobretudo, de deveres. Vem de longe o meu amor desinteressado. Tanto que trago o teu corpo no meu…
Trajam de verde, os meus gestos e as palavras que, colocadas num sopro de verdade e guardiãs do teu corpo de água, repreendem, severamente, a indiferença de outros…
Maldigo a semântica que fez uso da crença na tua eternidade, como se de uma vingança se tratasse, perante a perenidade dos homens. Egoísmo atroz. Desamor. Assassinato de emoções e sensações. Privação da condição primeira da sobrevivência do que é ser humano: o imaginário direto, vivido olhos nos olhos e legado na manifestação artística. O meu neto já não poderá atestar do remanso de que lhe falarei, nem das cores vivas, sem manchas, nem dos cheiros frescos, impolutos…
Meu amigo, meu corpo de água! Prometo continuar a não te falhar. Prometo não deixar que o teu corpo emagrecido continue a definhar pela incúria dos teus falsos amigos. Que se escudam em discursos palavrosos, nos exatos momentos da incidência das luzes nas suas bocas imperfeitas. Pois que, perfeitas, são as bocas que te beijam…

Odete Costa Ferreira (texto e foto) - 20-11-17

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Mulher-dor


Penduravas nas cordas a íntima roupa,
como oferenda a um deus redentor.
Ia-se o lamento na levada do sol. Uma benção!
Tal como os frutos dados ao sequeiro,
para mitigar as fomes do longo inverno;

o inverno que te caiava o rosto,
fazia tempo; o tempo que te ressecara o viço,
te revirgindara no preto da íntima pele.
Culpavas o fumo do lacrimejamento
que te inflamava os olhos verdes,
já apequenados e secos de gente.

E era fumeiro, em pleno verão;
do bulício do regato fizeste retratos imprecisos.
Que mastigas, chamando
a saliva que te desfaz o carolo de pão.
No teu rosto, mulher-dor, só vejo camas de espera.
Onde te deitas. Há muito, só!

Odete Costa Ferreira, 11-10-17

Obra Edvard Munch

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Por algum tempo


Chega-me o cansaço do vazio espaço.
Por algum tempo, o olhar ficará inquieto,
vagabundo do pátio, sem o abrigo da casa-jardim.
É a nostalgia dos gestos matinais
e do bom dia que o café não exalará,
no alpendre dos pensamentos veraneantes.

Suspira-me a alma, numa confidência muda,
a amarelecer as hastes do tempo verde.
Bem sei que é sinal da mudança da hora,
do fechamento do sol à intrepidez dos dias,
do recolhimento das horas largas de sol.

Por algum tempo, nada saberei do amor
jurado nos braços nus das esplanadas.
É o mistério a pulsar o passo que traço
e repasso em nova geometria,
inversa à nitidez das coisas,
um quase lusco-fusco da claridade.

É preciso ir para lá do jardim, passar o muro,
rebaixar a altura para apanhar o colorido
que se oferece numa profusão de tintos
que não sei manejar; sei, apenas, retirar a essência,
o pó que realçará as tuas maçãs do rosto, mãe.
Por algum tempo, será outono. Mas, em ti, não.

Odete Costa Ferreira, 27-09-17

Obra de Olga Blinder