domingo, 17 de fevereiro de 2019




Mais um

Correm-me os dias como o sangue nas veias. Arrumo tarefas como se fossem atalhos de acesso ao cérebro e não há tempo para que o pensamento se conspurque com juízos menos valorativos sobre atitudes de outrem. Tenho, por princípio, a reserva ética e a profunda convicção de que não vale a pena, sobretudo quando o tempo apenas se subtrai. E urge fazer a equação da quantidade-qualidade-produto final. E, assim, adiciono ativos imateriais que não consubstanciarei em legado, apenas o induzo em quem me observa, vendo-me nos atos.
E chega mais um. A década já presenciou três. Releio o texto de então (16-02-2016 -http://portate-mal.blogspot.com/2016/02/entre-quem-e.html) para não cometer infidelidade, por omissão, à união de facto que celebrei no texto de então. Respiro, aliviada. Prometo(-me) confiar. Permito(-me) o poético e o prosaico, sendo que, num e noutro, o sublime é igualmente válido. E o choro e o riso são passos do mesmo caminho.

Odete Costa Ferreira, 16-02-2019
Publicado em 17-02-2019

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Daqui a nada…





Daqui a nada, a instantes mesmo, dada a pequenez da existência, dobra-se o ano, de forma perfeitamente objetiva sem qualquer interferência, nem mesmo a do senhor tempo, pois que este é, em simultâneo, dono e servo. E nós, apenas servos. É certo que temos o nosso momento de brilho: os rituais, os fogachos e outros artefactos. A futilidade útil, o brinde com espuma e sorriso. Mas apenas isto!

Neste postulado assenta a minha natural rejeição para fazer balanços, no que à postura e assunção de caminhos diz respeito. A conjugação das circunstâncias, dos espaços e das emoções, ditam-me o balanço necessário, em cada momento, ao longo dos dias do ano. As contas, essas, fazem-nas por nós; são números plasmados no deve e haver das folhas de excel, do extrato bancário ou simplesmente (e infelizmente) na troca direta entre as necessidades. Resta-nos a conta que temos connosco próprios: a de, em cada segmento temporal, extrairmos o saldo positivo de cada transação.
Assim sendo, com mais ou menos fogachos, que o sorriso se sobreponha ao choro e que o respeito pelo outro esteja na ordem do(s) dia(s)!

Odete Costa Ferreira, 30-12-2018
Direitos Reservados
Arte de Graça Morais, “O Segredo II”, 2008 (pintora nascida no concelho vizinho, Vila Flor, em Freixiel.) 

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

És tu que me anuncias o natal




És tu que me anuncias o natal,
ainda que as palavras me cheguem
mais curvas e empalidecidas.
Talvez até medrosas. Se lá chegar;
Vêm cá este ano?
Não sei se as perguntas são mesmo perguntas,
que as respostas são cada vez mais incertas.
Mas, certo, certo, é o natal, mãe!
E as rabanadas que ainda fazes
bem molhadinhas em chá preto.
E somos dezembro, o mês inteiro.
Cordão umbilical que não se corta,
apenas se molda aos dias
em que és mais mãe e eu mais filha.
Por vezes, ausento-me e narro-te
em folhas que nascem de árvores.
Prefiro as outonais, caem mas são natal:
anunciação, advento, nascimento.
E somos gestação e parto. E dor,
quando os olhos não abrem sorrisos.
Nem ouso falar-te da orfandade fora de portas.
Dessa ainda posso cuidar. Mais tarde, quando vir
que o beijo te adormeceu o cansaço dos dias mais escuros.

Odete Costa Ferreira, 05-12-2018
Direitos Reservados
Arte de Christian Chloe

Com carinho, desejo aos meus amigos da blogosfera, uma excelente quadra natalícia.

(Aproveito também para, no meu espaço, divulgar o Prémio Literário da Lusofonia Prof. Doutor Adriano Moreira, deixando o link do regulamento, podendo ser este solicitado para o mail da Academia - http://altm-academiadeletrasdetrasosmontes.blogspot.com/2018/11/regulamento.html)

sábado, 27 de outubro de 2018



Voragem

Na aquiescência da voragem dos púlpitos,
perdem-se as horas quietas nas varandas
da secagem dos frutos.
Parece desnecessária a mastigação
dos entardeceres acompanhados de copos de três,

não os reconheço, não lhes tomei o corpo,
mas sei deles porque a afeição telúrica
das gentes da minha memória
honravam os pretextos para o escancaramento das portas.
E as pedras dos muros eram testemunhas
da veemência das falas e dos braços roliços,

a segurar mundos. Mundos em que o silêncio
era pesado apenas fora deles.
Dentro, os ecos eram sinais de vida,
púlpitos autênticos sem fake news.
Com rostos abertos a olhares viris, sem medo,

e as crendices, que habitavam os gestos,
uniam as almas crentes.
Neste tempo, de redes com cantos de sereia,
asfixiam-se peixes. Sobretudo,
os que teimam em manter as guelras limpas.

Odete Costa Ferreira, 27-10-18
Direitos Reservados
Obra de Rosi Costa

terça-feira, 21 de agosto de 2018

Notícias d´Aqui

Não me defraudou o tradicional espectáculo piromusical levado a cabo no dia 10 de agosto, pelas 23 horas, impossibilitado que esteve (e bem) de abrilhantar as festas da cidade e de N. Sra do Amparo, no dia 4 de agosto, devido ao alerta vermelho emitido pela Autoridade Nacional de Proteção Civil para o território nacional. Superou, mesmo, as minhas expectativas, quer pela espectacularidade, quer pela fantástica moldura humana que se assenhoriou, literalmente, de todos os espaços da zona ribeirinha. Se dúvidas houvesse quanto à decisão de honrar o compromisso com a empresa contratada e de não privar os mirandelenses e todos os forasteiros deste evento, a presença massiva de pessoas na cidade sufragou-a, de forma expressiva.
Habituada que estou aos fantásticos eventos de fogo de artifício na minha cidade, já não é fácil surpreender-me. Aconteceu, contudo, este ano. Arrepiei-me em muitos momentos, sobretudo quando senti uma total sintonia entre a música e a coreografia do fogo, transportando-me a um patamar quase divino. Vendo, no dia seguinte, o direto que o canal NTv fez, a partir do Hotel D. Dinis, percebi esta sensação. O empresário apelidou e espetáculo de "Divinus". Pois bem, conseguiu-o! E, ao meu espanto sentido, acresceu o respeito pelas pessoas que sabem fazer bem.
Mas tive outros espantos, digamos, mais viscerais. Perante a excepcionalidade verificada sobre a localização do luna parque na zona verde,  confesso que a aspereza manifestada contra os vários decisores envolvidos, sobretudo contra a atual autarquia, por muitas pessoas que sabiam, de antemão, que o assunto seria fraturante, me tirou do sério. Aliás, sempre que se efetua uma requalificação na zona ribeirinha e, atualmente no espaço envolvente do santuário, a localização das diversões transforma-se numa bola de pingue-pongue. Diria mais: parece haver uma embirração, quase genética, contra estes equipamentos que fazem parte intrínseca das festas da cidade. São tão nobres quanto outros equipamentos e conteúdos festivos. Não se pode ter sol na eira e chuva no nabal. Requalifique-se, mas (re)pense-se o espaço público, as pessoas e a sua satisfação!
E que satisfeita me senti na revisitação das diversões! O Ivo teve a sua primeira experiência de condução nos carrinhos; eu e a mana, apossamo-nos de uns cavalinhos, no carrossel, onde se pavoneava um cobrador de rabo-de-cavalo postiço e chapéu à cowboy! Não escrevi um poema, pois há poemas que não consigo escrever. Basta vivê-los!
Tal como a famosa e peculiar noite dos bombos, evento que se constitui romaria de afetos, de sorrisos, de abraços, unindo os mirandelenses, independentemente de qualquer credo e condição humana.
O tempo avança, inexorável e não é curial apressá-lo, mas não deixo de me conceder um brilhozinho nos olhos ao pensar que, em breve, o meu Ivo fará parte desta história.

Odete Costa Ferreira,  14-08-2018



Ivo, 19 meses, na terra do pai e avós

Fotos do fogo de artifício : Hugo Reis

(Após um curto período de férias, penso regularizar as minhas visitas aos blogues)

domingo, 3 de junho de 2018

Intimidades

Intimidades I
Respirei fundo como liberdade a fazer-se sopro numa brisa tépida, retemperadora, redentora de preguiças egoístas. Como se culpa fosse a desatenção dos últimos tempos, o desvio do olhar para outras histórias, o resguardo das vozes que me correm nas veias. Posterguei a intimidade das palavras minhas, o seu apelo imediato, a urgência de pousio no branco do papel.
Respiro fundo. E vou-me reconciliando, como alívio após o cumprimento de promessa. Como remédio de toma inadiável em distúrbios emocionais. E não são as palavras doença e cura? Feitiço e exumação do desperdício? Depuração e elevação?.
Cadencio o sopro, intermedeio o conflito e, pouco a pouco, deixo-me possuir por todos os instantes de leveza, por todas as cores, por todas as melodias. É cinzento, o dia, apesar de quase maio. Mas sorrio, sorrio. E nem dou conta das chamadas perdidas. Dos ruídos comezinhos. Do afeto das coisas cuja maternidade reclamam. Das conversas que até podia escutar, de tão próximas.
Estou só e quero-me só. Em momentos destes, inclino-me, levando o corpo para dentro, como se fora aviso pespegado na porta de um quarto: é favor não incomodar!

Odete Costa Ferreira, em 29-04-18, Flor de Sal, Mirandela, num momento de respiro entre o tanto que me tem assoberbado, ultimamente.




Em 23 de abril decorreu a fase regional do Concurso Nacional de Leitura, nas Bibliotecas Municipais. Na minha cidade, a obra escolhida para os alunos do secundário foi "Perguntem a Sarah Gross" de João Pinto Coelho. Integrando o júri  e decidida a estrutura da prova, uma espécie de tertúlia, foi desafiante ler e analisar a obra e estar neste "conversatório" com duas excelentes alunas, em termos de conhecimento da obra e posicionamento crítico face à trama e às várias mensagens narrativas.

Intimidades II

Missão cumprida , num projeto ousado, considerando o escasso tempo para o executar. Impossível mesmo, não fosse a teimosia que supera circunstâncias adversas, emoções à flor da pele e factos exigentes de horas. Mas ei-lo, apresentado ontem, dia 26 de maio, integrado no Festival Literário de Bragança.
Riquíssima de conteúdo e convidativa na forma, a coletânea “Gentes e Lugares - Contos e Contas de Autores Transmontanos”, edição da Academia de Letras de Trás-os-Montes (ALTM), leva muito da alma dos seus autores, associados desta agremiação, da qual sou coautora, com o conto inédito Maria Alcina e na qual estive deveras envolvida, enquanto corresponsável pela coordenação, correção e revisão de textos, assim como outros elementos da direção da ALTM, sobretudo a sua presidente.
Foram de quase clausura, os últimos tempos, mas profícuos em termos de resultados pois, além deste projeto, outras atividades literárias possibilitaram-me a reabilitação da palavra junto de públicos que queremos ver a dignificá-la e a enriquecê-la.
Entre Intimidades I e II, decorreu, sensivelmente, um mês. Um mês de pouco respiro pessoal mas de sopros benfazejos... Aquieto-me junto ao meu rio e restauro o olhar mergulhando-o nas suas águas calmas. Chega-me, nítida, a familiaridade deste espaço onde, de novo, me respiro e inspiro. Curiosamente, hoje o dia também não está radioso de sol, mas há música na alma e uma canção a estremecê-la.
                                                                                   
Odete Costa Ferreira, em 27-05-18, 12:45, Flor de Sal, Mirandela

Testemunhos em imagens
Oficina de Escrita
Festival Literário de Bragança - Moderação de uma das mesas de Poesia e Prosa, da responsabilidade da ALTM


Apresentação da coletânea, em 26-05, no Auditório Paulo Quintela




Registo fotográfico detalhado em: