segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

À míngua

Obra de Anna Dittmann

À míngua secam os ribeiros,
melodia de frescos mergulhos
de luas em fase minguante.
Abriram-se fendas misteriosas
nas rochas seculares das frágeis encostas.

À míngua secam os frutos,
paisagem de coloridos alimentos
de nómadas, ventos de liberdade.
Apareceram muros farpeados
nas terras de seus confins usurpadas.

Parecia haver um paraíso,
encantado ao toque de um dedo soporífero.

Foi-se diluindo
nas enxurradas de um destino já exangue
sem direito a Dantas e outros quejandos.

(Fugiu-me o chão onde pisava com firmeza
e a poeira colou-se como vestido…)
Pois, por míngua resta o restolho
e as espigas de milho já não ouvem
as cantigas das raparigas.
Os poemas caem como tordos,                                                 
bem se veem na calada madrugada
quando, forçada, abre a claridade.

(À míngua, morre-me o sonho, a poesia,
a criança…E até a saudade!
Sem ela, sou nada…)

Por míngua secam os sacramentos.
Mas é Natal. Suponho. Pelos ornamentos.
Dias minguados para tantas noites escuras…

OF – 18-12-15

Que não seja por míngua de palavras, de gestos e de sorrisos que não construamos, em cada dia, uma fortaleza de esperança. Bem robusta, para que não se esboroe ao menor abalo. Desejo, a cada um de vós, uma ótima quadra natalícia.
Odete Ferreira        Obra de Natalia Tsarkova                                                                              

                                        

17 comentários:

  1. Um excelente poema Amiga. À mingua estamos todos. Uns de bens materiais, outros de bens espirituais e outros, muitos infelizmente de bens essenciais à vida com dignidade.
    Um abraço e um Feliz Natal.

    ResponderEliminar
  2. Odete , você é brilhante como sua escrita . Parabéns ! Desejo a você um abençoado Natal e um novo ano repleto de saúde e esperança . Beijos

    ResponderEliminar
  3. Um belo poema minha amiga e infelizmente à mingua anda este povo já há muito tempo.
    Aproveito para desejar à minha amiga bem como à sua família um Santo e Feliz Natal.

    ResponderEliminar
  4. Um poema muito belo. Temos que escapar à fadiga dos sonhos minguados para que o nosso olhar se estenda até aos outros.
    Que a Luz se espalhe no coração de todos como um abraço amigo para que seja solidário o Natal que temos.
    Que o teu Natal seja cheio de conforto e que o Novo Ano te traga muita saúde, muita Paz, muito Amor.
    Um beijo, amiga.

    ResponderEliminar
  5. Creio que à míngua, jamais perecerei enquanto contar com seu tamanho talento, Odete!
    Que belo presente de Natal nos ofertaste! Obrigado!
    Que você e os seus, tenham o melhor Natal do mundo!
    Beijão!

    ResponderEliminar
  6. ~~~
    Concordo consigo:

    Natal não é uma quadra de míngua, pelo contrario,

    viver o Espírito Natalício, é celebrar um tempo de

    harmonia, fraternidade, solidariedade e esperança.

    Cabe-nos denunciar o ''natal de plástico'' e dar o

    exemplo do Natal vivido com amor e valores éticos.



    Há boas noticias: na abastada autarquia de Sintra,
    os pais - financeiramente débeis - acompanham os
    filhos nas refeições escolares.
    Já não é
    bem, como nos cantou o arrebatado Ary dos Santos...
    Para tal, trabalham muitos e muitos voluntários...
    Só não se podem fazer milagres.


    Grande abraço, desejando-lhe um Natal

    iluminado por intensa partilha de carinho e esperança.
    ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

    ResponderEliminar
  7. Querida Odete!
    Não podia deixar terminar o ano sem dar uma passadinha aqui com meus votos de um natal abençoado, repleto de paz, LUZ e amor. Que 2016 se faça leve e feliz! Beijuuss

    ResponderEliminar
  8. Votos de feliz Natal e próspero 2016.

    ResponderEliminar
  9. Olá Odete adorei ler o poema e conhecer
    seu blog.
    Boas Festas.
    Janicce.

    ResponderEliminar
  10. Pelo menos que não se morra à míngua de poemas belos e "fortes" como este , Odete.
    FELIZ NATAL!
    Beijinho

    ResponderEliminar
  11. Se possível, segure o Natal com ambas as mãos e transporte-o inteiro durante 2016, tal como é, para que tenha imensas "doçuras" e algumas , poucas, "travessuras"...

    ResponderEliminar
  12. Olá, Odete
    Eis um poema que aponta as falhas, os desleixos, o descaso, no que toca à acção, ou falta dela, da sociedade, i.e., de todos nós em tudo o que diz respeito ao nosso interesse comum. Perdeu-se o paraíso e reina a bancarrota.
    Mas é Natal. Que esta quadra tenha para nós um significado acima do supérfluo: que seja uma quadra de reflexão e de empenhamento em dias melhores.

    Tudo de bom para si e para os seus. Muito obrigada pela sua presença lá no Xaile.

    Bj
    Olinda

    ResponderEliminar
  13. À míngua de muita coisa se perdem Almas; mas que jamais se perca o Amor real por minguado sentimento.
    Poema a despertar o Espírito para se olhar (por dentro) a sociedade carente, especialmente nesta noite que deveria ser, universalmente, feliz.
    Te rodeie a auréola dum Natal Feliz.

    Beijo
    SOL

    ResponderEliminar
  14. Parecia haver um paraíso que se desvaneceu, mas não pode é morrer o sonho e a saudade. Embora em muitos casos, o Natal se resuma apenas aos ornamentos, ainda acredito na esperança, mesmo daqueles que vivem à míngua de tanta coisa. Só que a esperança não chega, é preciso mais.
    Um poema belamente dorido, e realista.
    Feliz 2016, Odete!
    xx

    ResponderEliminar
  15. Bonito poema!

    Isabel Sá
    http://brilhos-da-moda.blogspot.pt

    ResponderEliminar
  16. Boa noite Odete!
    Obrigada pelas tuas palavras que com toda a sinceridade retribuo. Caso para dizer "Olha quem fala"! Adorei !
    Queria perguntar-te uma vez que não tenho teu e mail se posso indicar poesias tuas para serem lidas no Inversos pelo poeta e ator-declamador Rui Diniz. Está no facebook para veres os nossos amigos que já foram contemplados.
    Quando puderes diz
    Renovo os meus desejos de um Novo Ano que te complete e realize os teus sonhos
    Beijinho

    ResponderEliminar