quarta-feira, 16 de março de 2016

Gestação


 Obra de Christian Schloe

Ainda aconchegadas no ventre materno,
esperando a gestação do tempo
numa calmaria aparente,
enquanto a montanha se oferece
ao acasalamento do calor solarengo
e o rio lá em baixo aguarda o parto,
as sementes, com amor plantadas,
vestem-se de púbis verdes,
anunciantes das mulheres de esperanças
porque delas nascerão primaveras.

Ainda me sobram as escuras vestes
no corpo ao tempo subjugado,
mas já são claros os olhos
que desassossegam a pele
quando, por fim, termina a gestação.

OF – 22-02-16

terça-feira, 8 de março de 2016

O verde nasce de ti

 Obra de Christian Schloe

Queres-te serena na contemplação muda
do universo que te muralha,
onde todos os desconfortos
te são confortos no sorriso de te saberes tu,
pilar onde assentas os tijolos vermelhos
das paixões que te efervescem a pele.
Uma casa, caleidoscópica,
onde és senhora e servil,
inspiradora, curadora,
âncora de destinos peregrinos.
Um chão onde fermentam afetos
a fazer o pão de tantas vidas.
Nada em ti é em vão!
Mesmo que te percas na temerária imensidão,
retomas o caminho vigiando as raízes.
São elas que te nomeiam,
em género e número.
Raiz. Raízes.
Cabelos que protegem o mundo,
De si próprio, também.
Por isso, mulher, a tua muralha
é um farol verde.
Serena, pousas a cabeça na cadeira de braços.
Verde. A cor de todos os espaços.
E fazes acontecer. Mesmo em tempo de repouso.

sexta-feira, 4 de março de 2016

Cantar de amigo

 Obra de Pierre Auguste Renoir

Se pudesse ter-te como queria
e abrir-me como flor n´alvorada,
decerto que o coração se veria,
assim como minh´ alma enfeitiçada.

Correm águas num fluir remanso
e as esperas apossam-me os sentidos.
De divina vontade m´esperanço,
e rosas cobiço em jardins proibidos.

Como em antanho num cantar d´amigo,
perguntando ao mar pela tua chegada,
dormindo a esmorecer de noitinha,

assim me partilho em dor contigo,
crendo que serei sempre tua amada,
morrendo-me de ti em fonte minha.

OF – 27-02-16

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

(O) caminho

Obra de Oleg Oprisco

Quiseste pôr-me à prova
entre os apeadeiros da longa viagem
e a espera da saída e entrada dos passageiros.
Estranhamente só eu me dava conta.
Nos lugares vazios deixavam a sua presença.
Buscava-a quando vacilava
e sempre que o interrogatório,
ondas insaciáveis de respostas,
me deserdava de raciocínio.
Tão fortes estas presenças!
Espíritos vivos, vozes de murmúrios,
rostos de rua ou de lua cheia,
gestos pantomineiros,
comédia de costumes,
gargalhadas a ecoar entre montes
ou lágrimas a encher paraísos perdidos.
Como lapas nas rochas,
apesar das águas iradas,
sabiam do seu destino
e persistiam em guiar o barco.
Era tão real o fogo-de-santelmo
iluminando o caminho!
Florido. Encantado.
E percebi.
Cada presença é minha pertença.
Cada momento é parte e todo.
De mim…

OF – 31-01-16

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Entre quem é


Não Os senti chegar. É sempre assim. Nunca se anunciam. Também nunca Os toquei. Conheço-lhes as manhas, por isso já nem disfarçam uma pretensa capacidade de surpreender. De dez em dez anos, entram na História para poupar palavras e fôlego. Ao Homem, claro. Ao Universo, tanto faz. Pelo menos à ideia que dele tenho, tão relativa quanto ingénua. A minha filosofia, vulgo vida, não passa de um rabisco fácil de redesenhamento numa outra que virá. Por isso, só a mim (e a uns poucos) é que Eles têm sentido. Cada Um é narrativa de muitas narrativas. Com índices longos e vivazes. De dez em dez anos, também Os abrevio por décadas. Automaticamente. Mas, este ano, estou mais reflexiva e não me apetece abrir um novo índice sem lhe criar uma identidade. Até por causa das estatísticas. Como cidadã, tenho o dever de me preocupar. Qualquer dia, ao ouvir que uma sexagenária fez isto ou aquilo, estarei de consciência tranquila. Assumo o meu novo estado. União de facto. Com a década. Doravante, o caminho poderá ser ziguezagueante e convém estarmos unidas. Para o que der e vier.
Estou feliz. Ela também.
“Daqui a dez anos, renovaremos os votos”, dissemos.
E Eles, que nunca se anunciam e são, naturalmente, desapegados, sorriram. Pareceu-me mesmo que piscaram o olho à nova inquilina. Afinal, não havia tempo a perder. 

Odete Ferreira – 17-02-16

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Reinvenção dos invernos

Obra de Vladimir Kush

Vigiei os andrajos por muito tempo
não fossem alguns raios de sol tardios
despertar os gestos antes de dezembro.

Nada deve perturbar o silêncio natural
de dias esquecidos pelas neblinas duradouras
e a despedida dos amantes.

A mudança das estações tem apeadeiros certos,
ainda que a incerteza
possa confundir os relógios de corda.

É na espera das celebrações
que um homem é mais Homem
e uma mulher será mais plena.

É na espera do homem das neves
que a criança dos frios reinventará os invernos.
Todos eles. Os do tempo e os da vida.

OF – 20-01-16