sábado, 1 de outubro de 2016

Nunca saberei dizer-te adeus

 Obra de Lauri Blank

Nunca soube dizer-te adeus.
A magnitude da tua luz
ofusca o meu próprio brilho
e só em recantos escuros
surjo vestida de branco
e pele curtida pelo teu tempo.

Há um durante que esbofeteia
a inércia acumulada pela tua ausência.
Toco as marcas da tua presença
como languidez de noites possessas,
como dança em ondas espreguiçadeiras,
areal de branda ondulação,
sussurros inconfidentes,
enquanto
me tomo de água, ar e vento,
esvoaçando
entre tules azuis
e o azul do teu olhar
límpido
apenas turvado pelas miragens
onde me afundo.

Guiam-me as velas de cheiros
e a música intimista
que vagueia pelo sentido de mim.

Nunca saberei dizer-te adeus.
Enquanto for, ser-te-ei fiel.
De uma fidelidade entalada no berço do sono,
entre estações
que se revezam numa espera serena.
E brindo, despedindo-me.
E brindo, vestindo-me de outras cores.

OF (Odete Ferreira) – 21-09-16

Não costumo pedir nada mas, desta vez, atrevo-me: quem passar por esta partilha e não tenha estado nesta http://portate-mal.blogspot.pt/2016/09/visitacao.html
gostava muito que  não a ignorassem. Obrigada.

23 comentários:

  1. Já por diversas vezes comentei que não tenho jeito nenhum para comentar poesia. É verdade. A poesia lê-se, sente-se ou não, emociona-nos ou não, entende-se ou não. Mas para comentá-la, não basta isso. É preciso que se vista a pele de quem a escreveu. E não é fácil. daí que eu me limite a dizer. Gostei muito.
    Um abraço e bom fim de semana

    ResponderEliminar
  2. Um poema-confissão de um grande amor que não mede o tempo da espera para se concretizar. Tocantes versos no enfoque da fidelidade!
    Abraço.

    ResponderEliminar
  3. Há fidelidades que duram uma vida.
    Associei logo a história do filme Titanic...
    Amores assim, tão intensos, perduram além de tudo.
    Uma criação poética singular, de um lirismo emocionante!
    O desenrolar de um tema pungente em estrofes diáfanas e sensuais.
    Fico comovida e grata por nos deixares mais um poema de rara beleza.
    ~~~ Abraço, querida amiga. ~~~

    ResponderEliminar
  4. muito belo teu poema, Odete
    privilégio esta partilha.

    grato.

    beijo

    ResponderEliminar
  5. O mais importante é ser feliz, dizia a minha mãe...
    Um excelente poema, quase confessional, em que se pode intuir alguma mágoa... Estarei errada?
    Uma boa semana.
    Beijos.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Amiga Graça, apenas uma criação poética. :)

      Eliminar
  6. Nunca se despede um sentimento.
    bj

    ResponderEliminar
  7. Querida Odete,

    A começar pelo o título que é lindo (no sentido de uma frase
    afirmativa no afeto), com o efeito expressivo tão poético!...

    O poema encantador, com uma imagética hipnotizante, uma melodia
    e uma sensualidade cativante de uma beleza rara, poeta!

    Bravo!!
    Adorei!!
    Beijos.

    Ps: Acabei de responder ao seu último comentário lá, quando puder,
    voei lá para ler...rss

    ResponderEliminar
  8. Tantas cores nas suas palavras

    Bj

    ResponderEliminar
  9. Bom dia Odete.
    Tantas vezes dizemos adeus enquanto o peito grita tantos "fica" e acabamos nos despedindo de nós também.
    Você escreve com a alma, lindo demais o teu labor, feliz por ter chegado aqui.
    Parabéns! Um abraço.

    ResponderEliminar
  10. Não aprendi dizer adeus
    Não sei se vou me acostumar
    Olhando assim nos olhos teus
    Sei que vai ficar nos meus
    A marca desse olhar

    Não tenho nada pra dizer
    Só o silêncio vai falar por mim
    Eu sei guardar a minha dor
    Apesar de tanto amor vai ser
    Melhor assim

    Não aprendi dizer adeus
    Mas tenho que aceitar
    Que amores vêm e vão...
    Conhece essa música brasileira Odete? É de um cantor sertanejo. Sua poesia me fez lembrar...
    Beijuuss

    ResponderEliminar
  11. perto da luz eu quero estar...
    grande abraço amiga !

    ResponderEliminar
  12. O que mais gosto em seus versos, é a propriedade com que retém a narrativa, provocando um desejo de tentar adivinhar o final.
    Não, eu também, nunca saberei dizer adeus a teus poemas, Odete!
    Beijão!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Li também Visitação.
      Simplesmente excelente!

      Eliminar
  13. Encantada com sua sensibilidade à flor da pele em cada verso lido . Obrigada pela partilha , sempre . Beijos

    ResponderEliminar
  14. Criação poeta magnífica, minha amiga. A demonstrar que és uma poeta que sabe encontrar nas palavras todos os sentimentos, próprios ou alheios...
    Obrigada e um beijo.

    ResponderEliminar
  15. Sentimos, mas nem sempre conseguimos colocar em palavras a grandiosidade do que nos vai na alma. Maravilhoso, como sempre. Enquanto nos abraça o afeto, impossível dizer adeus. Bjs.

    ResponderEliminar
  16. Dizer adeus não é fácil.
    E o melhor mesmo é nunca o dizer...
    Excelente poema, querida amiga, gostei imenso.
    Odete, tem um bom fim de semana.
    Beijo.

    ResponderEliminar
  17. Bom dia, lindo poema, seu dom poético é enorme, é preferível dizer até já do que um adeus.
    Bom domingo,
    AG

    ResponderEliminar
  18. O conceito de adeus, apesar de aparentar simplicidade, tem muito que se lhe diga. Parece-me o caso, em que, para uma mãe, todo e qualquer voo da sua cria é quase um derradeiro adeus. Nunca o é, a não ser em circunstâncias trágicas, mas o amor de mãe, o mais profundo de que há conhecimento, tem estas cambiantes: a sua cria, fruto que, para se começar a assumir, teve que lhe "rasgar" as entranhas, num acto do que de melhor tem o primitivo, vai-se separando dela, ganhando carta de alforria. Mas, para uma mãe, dê as voltas que o mundo der, será sempre o fruto de si, amor incondicional até ao fim dos dias.
    (Caramba, Odete, estou emocionado...!)

    Um beijinho :)

    ResponderEliminar

  19. No acto de dizer adeus vai parte de nós. Desgarrados, os momentos já vividos e os que estão para vir entram em conflito, trazendo-nos a sensação de que um mundo hostil e sem luz tomará conta de nós.

    Beijinhos

    Olinda

    ResponderEliminar
  20. E eu também nunca saberei dizer! Não fui moldada para despedidas, nem curtas, nem longas, nem para sempre. Me dá uma tristeza, um aperto, um nó dolorido demais.
    Aplausos pra você, Odete!
    beijo.

    ResponderEliminar